09/06/2017

Elétricas dos Estados Unidos sofrem pressão para reduzir suas emissões

Fonte: Valor Econômico

eletricas americanas

Por Andrew Ward | Financial Times

Empresas de eletricidade dos Estados Unidos, como a American Electric Power e a DTE Energy, vão precisar intensificar os esforços de redução das emissões de gás carbônico apesar da decisão do presidente o país, Donald Trump, de sair do acordo climático de Paris, segundo um grupo de fundos de investimento com mais de US$ 4,5 trilhões de ativos sob administração.

Um estudo sobre as 20 maiores produtoras de energia elétrico do mundo em valor de mercado concluiu que as empresas europeias do setor, como a espanhola Iberdrola, a italiana Enel e a britânica SSE, vêm progredindo mais do que as americanas na redução de suas pegadas de carbono.

Isso cria riscos de longo prazo para os que investem em grupos de energia dos EUA, segundo o estudo, financiado por um grupo de fundos, incluindo o BNP Paribas Asset Management e o Legal & General Investment Manegement.

Estudo da London School of Economics traz boas notícias para defensores de ações contra as mudanças climáticas

Adam Mathew, copresidente da Transition Pathway Initiative, que realizou a pesquisa, disse que seria um erro as concessionárias elétricas americanas interpretarem a saída do Acordo de Paris anunciada por Trump – e sua promessa de reanimar a indústria de carvão nos EUA – como sinal de que devem interromper seu movimento de adesão a fontes mais limpas de geração de energia.

“Muitas das decisões estratégicas diante das empresas pressupõem um intervalo de tempo muito maior do que a presidência de Donald Trump”, afirmou Matthews, que também é diretor de engajamento ético de fundos de investimento e de pensão da Igreja Anglicana com quase 10 bilhões de libras esterlinas (US$ 12,93 bilhões).

“[O presidente Trump] claramente vai ser uma força de perturbação por um período de tempo, mas a mensagem que chega de boa parte do mundo empresarial americano é que os compromissos de Paris devem ser observados e a legislação estadual ainda vem avançando nessa direção”, afirmou.

O estudo, encabeçado por acadêmicos da London School of Economics (LSE), traz algumas boas notícias para os defensores de ações contra as mudanças climáticas: atualmente a maioria das empresas do setor de eletricidade, incluindo as americanas, vem reduzindo as emissões de acordo com as metas mundiais determinadas no Acordo de Paris.

Das empresas que divulgaram seus planos de redução nas emissões, no entanto, apenas duas (Enel e Iberdrola) traçaram uma rota que vai seguir até 2030 as ações necessárias para alcançar o objetivo do Acordo de Paris de limitar o aumento médio das temperaturas mundiais a menos de 2°C em relação ao patamar pré-industrial. Mesmo essas duas empresas não atingiriam algumas metas regionais europeias ainda mais rigorosas.

As pressões políticas e dos órgãos de supervisão pela redução das emissões, somadas ao declínio no custo da geração de energia solar e eólica, levaram a um grande aumento nos investimentos em tecnologias de fontes renováveis, especialmente na Europa. As empresas, entretanto, não vêm agindo com a rapidez necessária, segundo Simon Dietz, codiretor do Instituto Grantham de Pesquisas de Mudanças Climáticas e do Ambiente, da LSE. “As concessionárias vão precisar reorientar suas estratégias e seus investimentos em bens de capital de forma significativa para que o setor fique abaixo do referencial mundial de 2 graus”, disse Dietz.

De acordo com Helena Viñes Fiestas, chefe de Análise de Sustentabilidade do BNP Paribas Asset Management, as empresas que não conseguirem alinhar suas estratégias com o Acordo Paris poderiam se deparar com o risco de infringir a regulamentação e de afetar o valor do investimento dos seus acionistas. Viñes Fiestas planeja usar as conclusões do relatório para intensificar o engajamento de empresas apontadas como retardatárias na redução das emissões, em particular nos Estados Unidos.

O estudo mostra que seis das 20 maiores concessionárias de energia já estão atrás das metas do Acordo de Paris: a American Electric Power, a DTE Energy, Eversource Energy e a Xcel dos EUA, a Fortis do Canadá, e a CLP Holdings de Hong Kong.

“A mudança climática não é o único motivo para as empresas agirem”, disse Viñes Fiestas. “Também há fatores econômicos, como a queda no custo das [fontes] renováveis e os avanços tecnológicos nas tecnologias limpas, que vêm mudando totalmente o cenário para as concessionárias”, completou.

O setor de energia elétrica é o primeiro dos sete que vão ter seus esforços de redução das emissões de gás carbônico analisados pela Transition Pathway Initiative. Há planos de novos estudos sobre as indústrias automotiva, siderúrgica, de petróleo e gás, de mineração, de cimento e de papel e celulose.

A divulgação, ontem, do relatório sobre as empresas de eletricidade chega depois de os acionistas da ExxonMobil terem votado na semana passada a favor de a empresa publicar uma avaliação anual sobre o impacto em seus negócios das políticas mundiais de combate às mudanças climáticas, mesmo diante da oposição do conselho de administração da empresa, sinal da preocupação cada vez maior dos investidores sobre o assunto. (Tradução de Sabino Ahumada)