27/06/2017

Térmicas a gás: caminho para a geração de base

Fonte: Canal Energia

Segunda fonte da matriz elétrica é vista como melhor alternativa para o suprimento contínuo do sistema, mas mercado espera por definições

Termoelétrica-Três-Lagoas

O cenário atual é de interrogação e incertezas no que cerca o futuro da expansão de térmicas a gás natural no país. Sem a garantia de realização de novos leilões para o segmento em um cenário de curto prazo e com investimentos cada vez menores frente aos das novas renováveis, como eólica e solar, a geração a gás segue como a segunda em importância na matriz elétrica brasileira e a que, em tese, melhor se complementa à base majoritariamente hídrica do Sistema, isso na visão de dez entre dez especialistas do setor. Se o parque já conta com uma infraestrutura que permite a continuidade da expansão e a necessidade de implantação de novas plantas permanece, por que a indefinição?

No governo, a única confirmação de contratação de termelétricas por meio de licitações públicas este ano, até agora, não envolve a geração a gás, mas apenas a biomassa. O Leilão de Energia de Reserva já garantido pelo Ministério de Minas e Energia, porém, deve ter na contratação de projetos eólicos e de solares o foco principal, dada a ausência de leilões para essas fontes desde 2015. A última aquisição de um empreendimento termelétrico a gás natural no país, por meio de leilão, aconteceu em maio do ano passado, quando o Leilão de Energia A-5 viabilizou a usina Oeste de Canoas 1, no Maranhão, com apenas 5,5 MW de capacidade instalada. Pouco para o que se espera.

Especialistas da área elétrica ouvidos pela reportagem da Agência CanalEnergia são unânimes em afirmar que, dadas as condições ambientais restritivas que praticamente anulam as perspectivas de novos projetos hidrelétricos com grandes reservatórios, a termeletricidade a gás natural é a opção viável com as melhores características para assumir o papel de geração de base no Sistema Interligado Nacional, evitando, em boa parte, o acionamento do parque hidrelétrico já existente. A observação leva em conta características tanto de segurança no atendimento quanto de custo de operação, e tem como pano de fundo capacidade de regularização cada vez menor do parque de geração brasileiro.

“O ideal, para a função energética, é termos térmicas de base a gás natural rodando o ano todo, possibilitando a estocagem de água nos reservatórios e evitando a explosão de custos decorrentes do risco hidrológico. Nesse modelo, as térmicas fariam a gestão da energia e o atendimento ao sistema”, defende o presidente da consultoria Thymos Energia, João Carlos Mello, que construiu um estudo encomendado pela Associação Brasileira de Geradoras Termelétricas no qual a opção pelas térmicas a gás como geração de base é detalhada já com a projeção de ganhos sistêmicos. O trabalho parte do princípio de que o parque térmico atualmente existente é inadequado, dada a gestão do sistema.

Na avaliação de Mello, não existe hoje no país o chamado “parque termelétrico ideal”, na medida em que o Operador Nacional do Sistema Elétrico é obrigado a despachar usinas térmicas a óleo diesel ou a óleo combustível, mais caras e que não foram projetadas para rodar todo o tempo. Contratadas mais fortemente pelo governo a partir de 2007, como única alternativa encontrada naquele momento pela Empresa de Pesquisa Energética para suprir a falta de outros projetos de geração mais eficientes, as térmicas a combustíveis fósseis mais poluentes tornaram-se imprescindíveis para a operação do sistema desde 2011, quando a hidrologia se tornou crítica mesmo nos meses chuvosos.

Relatório de acompanhamento da Agência Nacional de Energia Elétrica mostra que, desde 2005, quando o governo Lula realizou o primeiro leilão de novas usinas já sob as regras do modelo setorial instituído em 2004, o acréscimo anual de térmicas a fontes fósseis aumentou a partir de 2007. Neste ano foram incorporadas 642,9 MW em usinas do tipo, caindo para 611 MW em 2008. Em 2009, porém, um novo salto, só que bem maior: 1.068 MW de plantas fósseis, volume que seria praticamente dobrado no ano seguinte, quando o acréscimo térmico fóssil chegou a 2.012 MW em 2010. Foram registrados mais 1.206 MW em 2011, 753 MW em 2012 e 2.611 MW em 2013.

Reflexo disso, ressalta o presidente da Thymos, é uma matriz elétrica economicamente mais cara, ambientalmente mais agressiva e socialmente mais questionável. “Isso fica insustentável ao longo do tempo”, observa Mello, que defende o uso de térmicas a gás em ciclo combinado para o atendimento da curva de carga em momentos pontuais, como nos horários de ponta de demanda e durante os períodos de intermitências em usinas geradoras naturalmente instáveis – caso da eólica e também da solar. Na visão dele, a inserção cada vez maior dessas fontes intermitentes no sistema oferece uma contrapartida térmica tanto para a base do sistema quanto para o atendimento do dia-a-dia.

Além da chamada “despachabilidade” para o suprimento pontual em casos de intermitência e de ponta, o atributo estrutural da segurança energética é reforçado pelo presidente da Abraget, Xisto Vieira Filho, como um trunfo que só as térmicas têm a oferecer. No estudo construído pela Thymos para a associação e já levado ao MME e à Aneel, a proposta de expansão do sistema passa pela realização de leilões específicos para a incorporação de térmicas de base, especialmente para a região Nordeste – onde as dificuldades hidrológicas são mais maiores. A ideia é garantir a essas plantas o suprimento de combustível via gás natural liquefeito, com cláusula de take or pay de pelo menos 70%.

Na proposta levada pela associação aos órgãos de governo, a projeção de contratação ficou em 3 mil MW. “A reação (das entidades) foi a melhor possível, todos viram a importância da medida. A Abraget sempre defendeu leilões por tipo de fonte e por submercado, e o governo agora tem considerado essa possibilidade, o que é ótimo”, afirma Vieira Filho, que encara o GNL como um caminho viável, inclusive do ponto de vista financeiro, para a expansão da base térmica no país. O executivo enxerga ainda na inserção de renováveis intermitentes, como eólica e solar, um elemento a mais para a complementação termelétrica no sistema, e vê com bons olhos a entrada dessas fontes em conjunto.

De acordo com dados disponíveis no Banco de Informações da Geração da Aneel, a geração eólica já tem uma presença equivalente a 6,5% da matriz elétrica brasileira, com 10.587 MW de capacidade instalada e um crescimento vertiginoso nos últimos seis anos, quando era marginal no país. Já a presença de termelétricas fósseis no Brasil totaliza 26.940 MW, dos quais menos da metade – 13.018 MW – é de plantas movidas a gás natural. O combustível ainda é, isoladamente, o segundo de maior representatividade na matriz de energia elétrica do Brasil, chegando a 8,1% de participação e ficando atrás apenas do potencial hidráulico, que soma 98.743 MW e ocupa uma fatia de 61,5% no total.

Além de leilões específicos para novas térmicas, o presidente da Abraget lembra que o parque já existente também precisa de atenção, especialmente pelo fato de o cronograma de descontratação das usinas hoje lastreadas em contratos estar se aproximando. Cálculos da Abraget apontam que entre 6 e 7 GW de capacidade térmica terão seus contratos vencidos nos próximos cinco anos. São usinas que já contam com infraestrutura de transmissão e garantia de fornecimento do combustível, além das licenças ambientais de operação. A ideia da associação é apresentar em breve uma proposta de recontratação dessas plantas aos órgãos de governo, considerando custos com OeM e retrofit.

Uma das interessadas neste tema é a Petrobras, maior geradora termelétrica do país com um parque próprio com 20 usinas e 6,1 GW de capacidade. Marcelo Cruz, gerente-executivo de Energia da companhia, calcula que exista hoje no país cerca de 1,5 GW de térmicas a gás sem contratos – caso das usinas de Cuiabá e Araucária. Esse volume crescerá para 3 GW a partir de 2020, aumentando gradualmente até 2025, quando a descontratação chegar a 100%. “Nossa expectativa é que a diferenciação de energia nova e velha, algo que vem desde 2003, seja revista. Essa produção não pode deixar de ser competitiva porque as regras de comercialização no mercado são menos atrativas que as da energia nova”, defende o executivo.

A proposta de realização de leilões de segurança energética, especificamente para a fonte térmica recompor a geração de base do sistema, ainda não ganhou voz de forma oficial por parte do governo, mas pode ser uma estratégia caso a necessidade de contração de demanda para os próximos anos seja vista como essencial agora. João Carlos Mello, da Thymos Energia, considera a iniciativa uma janela de oportunidade no sentido de dar mais flexibilidade para a operação do sistema por parte do ONS, e lembra que, hoje em dia, o acionamento de termelétricas na função de base já ocorre de maneira “torta”, com plantas que não foram contratadas e tampouco programadas para esse uso.

Da parte do Operador, não há muitas dúvidas: se não propriamente agora, a expansão da geração térmica a gás natural visando à cobertura do atendimento de base do sistema interligado será essencial em um cenário de médio prazo em diante, a partir de 2023. “Olhamos com boas perspectivas (o acréscimo de usinas a gás). A capacidade de expansão hídrica já é muito reduzida, e praticamente todo o nosso potencial já foi explorado. Quando olhamos para o futuro, o que resta é utilizar as fontes renováveis como eólica e solar, que têm muito espaço para crescer, complementando com as fontes convencionais, e o gás natural é sem dúvida a melhor delas”, avalia o diretor-geral do ONS, Luiz Eduardo Barata.

Ele alerta, no entanto, que é preciso definir no âmbito do planejamento quais as composições ideais para as matrizes energética e elétrica nos próximos anos, deixando claro os espaços para cada fonte levando-se em conta aspectos diversos como preço e alocação. Barata explica que atualmente, na busca de um despacho ótimo, as térmicas a gás inflexíveis fazem a complementação de base, enquanto as flexíveis operam na modulação de carga, nos períodos de intermitência das fontes solar e eólica. De acordo com a média dos balanços diários de energia do ONS, o despacho térmico ao longo do mês de junho está em torno de 9 mil MWmédios, ou aproximadamente 15% da carga média do SIN.

Atenta à questão, a Empresa de Pesquisa Energética enxerga um aumento gradual da participação termelétrica no conjunto da matriz brasileira à medida em que o potencial hidrelétrico do país estiver reduzido ao longo do tempo. Dentro dessa perspectiva, o diretor de Estudos Econômico-Energéticos e Ambientais da EPE, Ricardo Gorini, elege o gás natural como a alternativa energética com as melhores características para atender à complementação termo-hídrica que retrata a configuração atual do sistema, sazonal e ainda dependente da hidrologia. “Nossa meta é buscar a diversificação da matriz, expandindo as renováveis – entre elas a hídrica – com a complementação térmica”, pontua o dirigente.

Atualmente com um grande projeto térmico na carteira de investimentos, de 1.238 MW de capacidade previsto para a cidade de Rio Grande (RS), o grupo Bolognesi Energia reforça a necessidade termelétrica. O CEO da companhia, Fernando Chein, acredita que as térmicas a gás natural, além de darem garantia de suprimento ao sistema, permitirão a expansão das fontes renováveis intermitentes, a manutenção dos grandes reservatórios e a base para o suprimento de gás natural para a matriz energética nacional além do uso na área de eletricidade. Para o executivo, o percentual de despacho assegurado vai permitir a compra de gás de forma econômica, competitiva e aderente ao mercado da commodity.

Ponto emblemático quando o assunto é expandir a geração térmica a gás natural, a garantia do fornecimento de combustível é vista como uma questão em aberto, muito por conta das discussões regulatórias tratadas no âmbito do projeto federal Gás para Crescer e da abertura do mercado devido à saída da Petrobras de boa parte das atividades da cadeia. Ao mesmo tempo em que redesenha o mercado de gás, com a definição de papeis para agentes de transporte, importação, comercialização e distribuição, o Gás para Crescer terá a missão de redistribuir entre os diversos (novos) atores do segmento as responsabilidades até então concentradas em um único – e enorme – agente.

Na avaliação do diretor-geral no Brasil da consultoria Wood Mackenzie, Pedro Camarota, há o risco de que nem todos os players do mercado consigam executar o papel de supridor do insumo ao mercado consumidor, incluindo o elétrico. Isto, diz ele, leva em conta a demanda sazonal por parte das termelétricas, de natureza bastante diferente do papel que hoje cabe às concessionárias de distribuição. O cenário pode resultar na dificuldade de incluir garantias contratuais e planos de contingência que suportem os geradores termelétricos nos acordos comerciais de aquisição do combustível, algo que sempre foi assumido pela Petrobras enquanto agente central em todos os elos da cadeia de gás.

“A partir do momento em que a Petrobras deixa de atuar como tomadora de decisão, é preciso reorganizar o sistema no intuito de mitigar aos agentes os riscos que hoje não estão claros, tampouco precificados. Questões como acesso ao gás e condições de suprimento ficam em aberto e podem impactar o custo da molécula para o consumidor final”, avalia Camarota, que defende a adoção de um mecanismo de transição junto com a implementação do novo marco regulatório. Para ele, a falta de diálogo entre o setor elétrico, enquanto consumidor, e os agentes fornecedores trava entendimentos na busca das melhores condições de contratação de gás, a custos adequados para as duas pontas.

A aproximação dos interesses em comum entre os setores de gás e de eletricidade concentram os trabalhos do subcomitê 8 do Gás para Crescer, que trata da harmonização dos dois mercados. Mesmo sob um cenário já desenhado no qual a cadeia da indústria do gás ganhará novos entrantes, desde a produção até a ponta do varejo, a Petrobras continuará como o maior e mais relevante player do segmento, dona da maior fatia de produção do insumo e atuando de maneira integrada com outros negócios nos quais a empresa atua, incluindo geração de energia elétrica. Hoje, a demanda de gás natural do setor termelétrico chega a 42 milhões de m³/dia, equivalente a cerca de 40% da demanda total do país.

“Desde 2013, quando a hidrologia atingiu níveis críticos, a geração termelétrica se tornou muito relevante para o país e especialmente para o mercado de gás natural. Nesse contexto, a expansão térmica é fundamental e deve ser avaliada como um complemento também às fontes intermitentes”, reforça Marcelo Cruz, gerente-executivo de Energia da Petrobras. Para ele, somente um aprimoramento das regras no modelo do setor elétrico pode compatibilizar a necessidade de o país explorar seu potencial renovável hídrico, eólico e solar sem abrir mão de garantir o suprimento confiável com uma base térmica. Como numa balança de duas medidas, o ponto ótimo entre esses dois lados é o objetivo a ser alcançado.