01/08/2017

Aumento da frota de veículos elétricos levantará novamente a necessidade de investimentos em fontes firmes de geração

Fonte: PetroNotícias

eletroposto

O Reino Unido seguiu os passos de outros países vizinhos europeus e decidiu que vai proibir a venda de carros novos movidos a gasolina e a diesel a partir do ano 2040. A medida não levanta apenas as questões ambientais, mas também a necessidade de reforçar a geração de energia para dar conta do aumento da demanda por eletricidade. O órgão britânico UK National Grid estimou que o impacto máximo dos carros elétricos no Reino Unido será equivalente à capacidade de 6 usinas nucleares. Neste contexto, o Brasil também não ficará de fora dessa transição. Isto é, o País também precisa pensar em investir em fontes firmes de geração de energia, como é o caso da nuclear, para dar sustentação à frota de carros elétricos. Para o diretor da KPMG para o setor automotivo no Brasil, Ricardo Bacellar, o governo precisa repensar a estrutura de geração energética nacional. “Com certeza, com o aumento da frota de veículos elétricos, vai entrar em discussão o redimensionamento da matriz energética brasileira. É óbvio que ao aumentar a demanda por energia, precisaremos aumentar a geração“, afirmou. O executivo também destacou que o etanol poderá ser importante neste momento de transição, podendo ser empregado em veículos elétricos movidos por células de combustível.

Como a indústria automotiva brasileira tem se posicionado em relação aos carros elétricos?

A visão dos executivos nacionais não difere da visão global. Este é um mercado global e o carro elétrico é uma tendência que veio para ficar. Desde o Salão do Automóvel de Paris, ficou bastante claro que a indústria aposta na migração para os veículos elétricos. A Europa está mais agressiva nessa postura. A Alemanha já formalizou que até 2030 não mais permitirá a produção de veículos a combustão. Agora, o Reino Unido adotou a mesma postura. E há de se imaginar que outros países do bloco vão seguir esta tendência. Os brasileiros estão bastante receptivos. Os executivos estão antenados e entendem que isso é processo sem volta. Jogamos um jogo global e o Brasil precisa estar integrado às diretrizes dessa indústria global. Sendo que essa mudança vai demorar um pouco mais para acontecer no Brasil.

Como está o movimento de transição no Brasil?

O governo está para lançar o documento Rota 2030, o novo regime automotivo do País. A indústria aguarda esse documento, que irá definir as diretrizes. Outro âmbito da discussão é sobre o papel do etanol nesse futuro cenário, utilizando esse combustível em veículos movidos a célula de combustível*. Especialistas que estão envolvidos nesse estudo indicam que nosso etanol possui uma série de vantagens em relação ao hidrogênio, que tem sido a fonte escolhida globalmente.

Quais seriam as vantagens dos carros elétricos que usam células a combustível, levando em conta a utilização do etanol?

Como sabemos, temos dois modelos. O primeiro são os veículos movidos a bateria. O outro é aquele que é alimentado célula de combustível. Neste último caso, como disse anteriormente, ou o hidrogênio ou etanol poderiam ser alternativas interessantes. O que conseguimos comprovar é que o etanol pode ser uma alternativa eficiente, e por isso o Brasil estará diante de uma oportunidade histórica, porque uma das grandes dificuldades para uma frota de carros elétricos é a infraestrutura necessária para recarga. O etanol vem de uma matriz limpa, porque vem da cana, logo não existe geração de poluente. Isso faz um diferencial considerável. Contudo, ainda não conseguimos produzir este combustível em escala industrial e, assim, comprovar que ele pode ser uma fonte energética.

Mas falando um pouco sobre os veículos movidos a bateria… Como o senhor enxerga a necessidade de aumentar a oferta de energia elétrica?

Com certeza, com o aumento da frota de veículos elétricos, vai entrar em discussão o redimensionamento da matriz energética brasileira. É óbvio que ao aumentar a demanda por energia, precisaremos aumentar a geração. Isso é uma parte da discussão. Tem ainda outros pontos importantes, que são a autonomia das baterias e também o descarte das mesmas. Se hoje em dia o descarte de pilhas ainda é um problema no Brasil, imagina como seria a logística reversa das baterias de veículos?

Quais são as suas expectativas em relação à frota de veículos elétricos no Brasil?

O governo esta preparando este documento Rota 2030, com várias diretrizes. Nós esperamos que ele privilegie a produção de veículos elétricos. O que observamos globalmente é que, cada vez mais, mais países vão restringir veículos movidos a combustão. E se o Brasil continuar só produzindo carros deste modelo, vamos perder mercado, já que a tendência é que as nações vão cada vez mais focar apenas em veículos elétricos.

*Diferentemente do veículo movido a combustão, os carros que usam célula de combustível são considerados elétricos e adotam o hidrogênio como fonte de energia. A tecnologia não emite poluentes. Em linhas gerais, a célula a combustível é um sistema que transforma a energia química do hidrogênio em eletricidade.