23/08/2017

A China e a revolução da energia

Fonte: Valor Econômico

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No começo de 2017, a China anunciou que investiria US$ 360 bilhões em energia renovável até 2020 e que abandonaria os planos de construir 85 centrais de energia elétrica a combustão de carvão. Em março, as autoridades chinesas informaram que o país já estava ultrapassando as metas oficiais de eficiência de energia, de intensidade de carbono e da parcela de utilização de matrizes energéticas limpas. E exatamente no mês passado o órgão regulador de energia da China, o Departamento de Energia Nacional, baixou novas medidas para reduzir a dependência de carvão do país.

Estes são apenas os mais recentes indicadores de que a China está no centro de uma transformação energética mundial, que está sendo impulsionada pela mudança tecnológica e pelo custo decrescente dos renováveis. Mas a China não se limita a investir em renováveis e a abandonar gradualmente o carvão. O país também é responsável por uma parcela crescente da demanda energética mundial, o que significa que a contínua mudança de sua economia rumo ao crescimento puxado pelos serviços e pelo consumo vai remodelar o setor de recursos do mundo inteiro.

Ao mesmo tempo, vários outros fatores estão reduzindo o consumo mundial de recursos, entre os quais o aumento da eficiência energética nos prédios residenciais, industriais e comerciais e a queda da demanda por energia por parte dos transportes, devido à proliferação de veículos autônomos e ao compartilhamento de viagens.

De acordo com o novo relatório “Beyond the Supercycle: How Technology Is Reshaping Resources”, do McKinsey Global Institute (MGI), essas tendências estão desacelerando o crescimento da demanda de energia primária. Se a rápida adoção de novas tecnologias continuar, essa demanda poderá alcançar o pico em 2025. E, com o uso menos intensivo de energia e o aumento da eficiência, a produtividade energética da economia mundial poderá crescer de 40% a 70% nas duas próximas décadas.

Embora o crescimento mundial da demanda por energia esteja perdendo impulso, a parcela dessa demanda correspondente à China está aumentando. Até 2035 a China poderá responder por 28% da demanda mundial por energia primária, em relação aos 23% atuais, enquanto os Estados Unidos poderão se responsabilizar por apenas 12% até 2035, parcela inferior aos atuais 16%.

A China já fez avanços significativos na redução de sua intensidade de uso dos recursos: entre 1980 e 2010, sua economia ficou 18 vezes maior, mas seu consumo de energia ficou apenas cinco vezes maior. De acordo com dados do Banco Mundial, isso reflete uma queda de 70% de intensidade energética por unidade do PIB.

Em seu 13º Plano Quinquenal, o governo chinês pretende reduzir a intensidade energética em um total de 15% entre 2016 e 2020. O país já está quase chegando ao cumprimento dessa meta. No Congresso Nacional do Povo, realizado alguns meses atrás, o premiê chinês, Li Keqiang, informou que, só no ano passado, a intensidade energética da China tinha caído 5%.

Os renováveis são um dos motivos para a queda da intensidade da China no uso de recursos. Na esperança de se tornar líder mundial nesse campo, a China já está investindo mais de US$ 100 bilhões em renováveis domésticos. Isso corresponde ao dobro do nível investido pelos Estados Unidos em energia renovável doméstica e supera o investimento anual somado dos EUA e da União Europeia.

No período de 1980 a 2010, a economia chinesa ficou 18 vezes maior, mas seu consumo de energia ficou apenas cinco vezes maior. De acordo com dados do Banco Mundial, isso reflete uma queda de 70% de intensidade energética por unidade do PIB

Além disso, a China está investindo US$ 32 bilhões – mais do que qualquer outro país – em renováveis no exterior, onde empresas chinesas de primeira linha assumem cada vez mais a liderança em cadeias de valor mundiais de energia renovável. A State Grid Corporation da China tem planos de desenvolver uma rede elétrica baseada em turbinas eólicas e painéis de captação de energia solar do mundo inteiro. Estima-se que as fabricantes chinesas de painéis de captação de energia solar tenham uma vantagem de custo de 20% em relação a suas congêneres americanas, devido a economia de escala e ao desenvolvimento mais avançado da cadeia de suprimentos. E as fabricantes de turbinas para geração de energia eólica, que zeraram as discrepâncias tecnológicas, respondem por mais de 90% do mercado interno chinês, em relação aos 25% cobertos em 2002.

Essas tendências sugerem que a China será uma fonte relevante tanto na demanda por energia quanto na tecnologia de ponta.

Sua experiência em redução da intensidade energética pode servir de guia para os países em desenvolvimento. E seus investimentos em renováveis internamente e no exterior poderão levar a novos saltos de qualidade tecnológicos que reduzam os custos para os consumidores de todos os países.

Mas a China também enfrentará dificuldades na transição dos combustíveis fósseis para os renováveis em meio a um setor mundial de recursos em transformação. Sua economia ainda é altamente dependente do carvão, o que envolve custos consideráveis na migração da capacidade para outros recursos, como gás natural e renováveis.

Além disso, a velocidade da construção de painéis solares e parques eólicos na China ultrapassou a da modernização da rede elétrica do país, o que criou um bom volume de desperdício. E as produtoras chinesas, a exemplo da maioria das outras, estão sentindo pressão crescente pela redução de seus custos e melhoria de sua eficiência para neutralizar os efeitos da desaceleração mundial do crescimento da demanda.

Apesar desses obstáculos, a inovação tecnológica deverá ajudar as produtoras chinesas a obter ganhos e gerar economias para os consumidores. De acordo com o MGI, até 2035, as mudanças da oferta e da demanda por commodities importantes poderão resultar mundialmente em economias totais de custos de US$ 900 bilhões a 1,6 trilhão.

A escala dessas economias vai depender não apenas da rapidez com que as novas tecnologias forem adotadas como também da maneira pela qual as autoridades e a empresas se adaptarem ao seu novo ambiente. Mas, acima de tudo, dependerá da China.