16/08/2017

Mercado tem falta de renováveis para 2018

Fonte: Valor Econômico

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Por Rodrigo Polito e Camila Maia | Do Rio e São Paulo

Os participantes do mercado livre de energia, que responde atualmente por 30% do consumo total do país, estão preocupados com a falta de oferta disponível na categoria “incentivada” (proveniente de eólicas, usinas solares, térmicas a biomassa e pequenas centrais hidrelétricas) para 2018. Tal energia diferenciada possui desconto na cobrança dos encargos de uso dos sistemas de transmissão e distribuição (Tust e Tusd).

Em estudo concluído na última semana, a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) indicou um déficit de cerca de 11 megawatts (MW) médios de energia “incentivada” para 2018. O problema ainda pode se agravar com o ritmo de migrações de consumidores para o mercado livre. Quase a totalidade desses novos consumidores do ambiente livre é formada por empresas de pequeno porte, com demanda de até 3 MW e que só podem comprar energia incentivada – os chamados consumidores “especiais”.

A CCEE, responsável pelo registro, contabilização e liquidação dos contratos de energia, porém, diz ser possível reverter esse quadro, por meio de mecanismos criados pelo governo para reduzir a sobreoferta das distribuidoras, no mercado regulado, liberando um volume de incentivada maior para ser negociado no mercado livre.

Esses mecanismos, concluiu a CCEE, possibilitaram uma sobra de 496 MW médios de energia incentivada para este ano. “A expansão da geração já esperada para o segundo semestre do ano, que totaliza acréscimo de 318 MW médios ao sistema, é outro fator que contribui com a disponibilidade de lastro”, afirmou a CCEE, em nota. “A partir de janeiro de 2018, as sobras de energia incentivada […] voltam a ficar comprometidas”, completou.

Segundo Erick Azevedo, diretor da comercializadora FDR Energia, o spread, diferença de preço cobrada pela energia incentivada, em relação a energia convencional, saiu do patamar médio de R$ 20 a R$ 30 por megawatt-hora (MWh) para R$ 60 por MWh.

“Estamos muito cautelosos em comercializar essa energia. Já existem projeções que indicam falta [de oferta disponível de energia incentivada] no ano que vem. Isso virou uma barreira para a migração [de consumidores para o mercado livre]”, disse o executivo. Segundo ele, a FDR Energia não está fechando novos contratos de venda de energia incentivada se não tiver volume suficiente para atendê-los.

Segundo Gustavo Arfux, sócio-diretor da Compass, especializada em comercialização de energia, o estresse em relação à oferta de energia incentivada encarece o produto e afeta a competitividade do mercado livre, em relação ao regulado. “Isso vai tirando parte da economia [de gastos com energia das empresas ao migrarem para o mercado livre]” diz o executivo.

Arfux lembrou que os mecanismos adotados pelo governo para reduzir a sobreoferta no mercado regulado têm aliviado o problema por permitir a “migração” desse bloco de energia para o ambiente livre. “Ainda assim [o balanço entre oferta e demanda] continua bastante estressado”.

A opinião é compartilhada por Debora Mota, gerente de gestão de clientes do grupo Delta Energia. O spread alto, explica, reduz a migração para o mercado livre, já que o consumidor especial tem a obrigação de comprar a energia incentivada. “Isso dificulta cada vez mais novas ondas de migração”, disse.

A comercializadora Safira Energia prevê um início de 2018 “bem justo” em termos de oferta de energia incentivada, segundo afirmou Lucas Rodrigues, analista de mercado da empresa. “Os spreads entre incentivada e convencional devem voltar a subir, muito provavelmente”, afirma.

De acordo com o presidente da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia Elétrica (Abraceel), Reginaldo Medeiros, uma oportunidade de resolver o problema está na reforma do setor elétrico, em discussão no ministério de Minas e Energia. A entidade defende que a medida provisória que tratará da reforma, prevista para ser publicada determine que seja eliminada de imediato a categoria de “energia incentivada”.

Segundo uma fonte da equipe energética de Michel Temer, porém, o governo não deverá intervir para resolver o problema, por entender que se trata de uma situação de mercado. Ela explicou que algumas comercializadoras já negociaram contratos de venda de energia incentivada, mas ainda precisam comprar essa energia para fechar a conta. “Muita gente vendeu [energia incentivada] sem lastro. Tomou o risco, foi comprar e não achou”.

De acordo com o índice de “atratividade do mercado livre para fontes limpas de energia”, desenvolvido pela FDR Energia e voltado para o preço da energia “incentivada”, o número em julho ficou em 0,533, ligeiramente inferior a junho (0,535). Quanto mais próximo de 1 mais atrativo é o mercado livre para o consumidor especial em relação ao ambiente regulado.