23/08/2017

Privatização da Eletrobras agrada elétricas

Fonte: Valor Econômico

eletrobras

A proposta do governo de privatizar o controle da Eletrobras foi bem recebida pelas companhias privadas do setor. Executivos ouvidos pelo Valor entendem que, de forma geral, a iniciativa está em linha com a reforma do setor elétrico, que está em discussão pelo Ministério de Minas e Energia e deve sair por meio de Medida Provisória em setembro. Eles, porém, alegam que ainda falta um detalhamento sobre o plano de privatização.

“Este anúncio da privatização da Eletrobras é o início da reforma do setor elétrico. Esta possibilidade já estava identificada no próprio texto colocado em consulta pública”, disse o presidente da EDP Brasil, Miguel Setas, em entrevista coletiva sobre as contribuições que a companhia enviou à reforma setorial. “Vemos este passo como uma sinalização positiva para o setor. É uma sinalização de que esta transformação tem um alto patrocínio do governo, no mais alto nível. Ficou clara a vontade do governo de fazer uma intervenção estruturante no setor elétrico neste momento”, completou o executivo.

O presidente da Engie Brasil Energia (ex-Tractebel Energia), Eduardo Sattamini, disse que a privatização do controle da companhia dará mais flexibilidade à gestão da Eletrobras, por exemplo em licitações de aquisições de bens e serviços. O executivo, contudo explicou que a empresa não tem planos de entrar no capital da Eletrobras. O foco da Engie, explicou seria nas hidrelétricas antigas que seriam descotizadas e, em seguida, privatizadas.

“Nosso interesse seria muito provavelmente nos ativos deles que seriam relicitados. [A privatização da Eletrobras] é muito mais um investimento para um gestor financeiro, não estratégico”, disse o executivo, em evento de comemoração dos cinco anos da BBCE, plataforma eletrônica de leilão contínuo de energia.

Para Sattamini, apesar de o governo determinar a privatização do controle da Eletrobras, a companhia só poderia retomar as usinas, após a descotização, se vencesse leilão em disputa com outros agentes.

Segundo ele, caso fosse oferecido à Eletrobras uma preferência na recompra das usinas, a mesma opção deveria ser colocada para a Cemig. “Tem que ter o mesmo tratamento, porque a Eletrobras tem minoritários. Se fosse uma empresa exclusivamente estatal seria diferente”, afirmou.

Presente ao evento, o presidente da CPFL Energia, André Dorf, disse que a decisão do governo de se desfazer do controle da Eletrobras traz aspectos positivos para o setor elétrico. “O modelo ainda não está totalmente divulgado. Mas tudo indica que o governo tende a reduzir a participação [na Eletrobras] e o mercado vai absorver isso. Não necessariamente um ‘player’ ou outro ‘player’. Evidentemente vamos olhar como olhamos todas as oportunidades de mercado, mas não necessariamente trata-se de privatização nos moldes que vivemos nos anos 1990, em leilões de venda para um agente privado”.

A decisão do governo de se desfazer do controle da Eletrobras traz aspectos positivos para o setor elétrico

O ex-presidente da Eletrobras e do conselho de administração da estatal José Luiz Alquéres elogiou a decisão do governo, classificando como “corajosa” a postura do ministro de Minas e Energia, Fernando Coelho Filho. Ele, contudo, defendeu que o processo fosse feito por meio da privatização das grandes subsidiárias regionais Furnas, Eletrosul e Eletronorte, com exceção da Chesf, que deveria continuar sob a gestão do governo, pelo papel importante que exerce na gestão da energia e dos recursos hídricos no Nordeste.

“[A Eletrobras] é uma empresa de escala continental. Na minha visão, os grandes blocos regionais deveriam ser vendidos privatizados sob a forma de ‘corporation’, para não haver nenhum grupo individualmente dono, e associados a uma grande responsabilidade ambiental regional. […] Um caso particular é o da Chesf, que, à primeira vista, não vejo como ser privatizada, face às enormes responsabilidades que ela tem relação ao uso múltiplo da água na região Nordeste”.

Considerando a opção de privatizar o controle da holding, Alquéres sugeriu que o governo ficasse com uma fatia de 20%, com direito a vagas no conselho.

O ex-presidente da Eletrobras criticou a forma desordenada com que o governo tem apresentado propostas sobre a estatal e o modelo do setor elétrico. “A própria proposta de descotização que está nisso [na audiência pública da reforma setorial] é de certa forma incompatível com o anúncio da [privatização] da Eletrobras. […]. “Há uma ‘usina’ de ideias do governo, mas falta por uma certa ordem”.

Contrário à privatização da Eletrobras, o Clube de Engenharia alega que a medida vai “desmontar conquistas econômicas e sociais” do país nos últimos 80 anos e encarecer o preço da energia. “Não tenho nada contra a participação privada em serviços de utilidade pública, com tarifas cobradas pelo custo, como são em todos os países que dispõem de base industrial. A indústria só funciona se tiver energia barata. […] “Não me surpreendo com a proposta. Querem transformar energia elétrica em mercadoria”, disse Pedro Celestino, presidente do Clube de Engenharia.