18/09/2017

Energia limpa facilita transição de modelo

A transição para a nova economia encontra no Brasil a vantagem de ser um país com vocação para a produção de energias limpas. Atualmente, a participação das fontes renováveis na matriz energética está na faixa de 42%, de acordo com o boletim mais recente do Ministério das Minas e Energia. Em grandes companhias geradoras, como CPFL Renováveis, São Martinho e Vestas, o desafio de explorar todo o potencial disponível envolve modelos de gestão e de negócios diferentes dos adotados hoje no setor energético, além de mudanças regulatórias e incentivos direcionados ao segmento.

“As fornecedoras de energias não renováveis trabalham com grandes projetos, de prazo longo, enquanto nós ‘colecionamos’ pequenos projetos desenvolvidos em prazos curtos e que precisam funcionar de maneira integrada”, diz o diretor-presidente da CPFL Renováveis, Gustavo Sousa. A empresa é líder na geração de energia renovável no Brasil, trabalhando com PCHs, eólica, solar e termelétricas movidas a biomassa. A capacidade instalada, de 2,1 GW, vem de 93 usinas. “Um de nossos maiores objetivos é integrar estas usinas e obter a maior eficiência possível.”

Com este objetivo, a CPFL Renováveis investiu R$ 4,5 milhões na criação do Centro de Operações Integradas, que até o fim deste ano deve concentrar todo o monitoramento de seus ativos de geração. “Desenvolvemos uma plataforma capaz de integrar tecnologias de diferentes fornecedores de equipamentos”, diz Sousa. O prazo para que um projeto aprovado em leilão entre em operação é de até dois anos e meio, o que requer um acompanhamento rigoroso do cronograma de todas as etapas até o início da operação.

A gestão da produção é outro ponto sensível, em razão de as energias renováveis não serem produzidas 24 horas por dia – caso de solar e eólica. “Este tema tem impacto nas decisões de investimento. O Brasil não pode ter hoje uma matriz 100% renovável porque precisa de outros tipos de energia para cobrir estes ‘buracos’ que eventualmente surgem”, diz Rogério Zampronha, CEO da Vestas Brasil & Cone Sul, dinamarquesa que é líder mundial no setor de energia eólica, com faturamento global de € 10 bilhões. Um meio de atacar o problema é dispor de um sistema de previsibilidade mais avançado. “Na Dinamarca, é possível saber onde e quanto vai ventar com 14 dias de antecedência e aqui isto só é possível 24 horas antes”, afirma Zampronha.

Já a baixa frequência de leilões nos últimos anos interfere no gerenciamento dos negócios. Segundo o diretor comercial e de logística do grupo sucroalcooleiro São Martinho, Helder Gosling, um dos grandes pleitos do segmento de bioeletricidade é um programa de contratação regular de fontes de biomassa por meio de leilões. “Esta fonte já chegou a representar 32% do crescimento anual da capacidade instalada do país. Para este ano, a participação é estimada em 7%”, segundo Gosling.

As estratégias empresariais dependem ainda da definição de regras claras e de uma política de incentivos para o setor. “Hoje a eólica vive sem incentivos, mas os demais segmentos precisam de estímulo econômico para ter massa crítica, volume, e tornar o país mais competitivo”, diz Zampronha. “A indústria como um todo tem flexibilidade para atuar com qualquer mudança regulatória. Tudo isto está sendo discutido e é positivo. Mas é preciso que, além de clareza nas normas, elas sejam anunciadas com antecedência para que tenhamos tempo para desenvolver projetos”, acrescenta Sousa, da CPFL.

As peculiaridades do setor de energia limpa têm efeito também no planejamento dos fornecedores. “A diferença entre trabalhar com geradoras de energia convencional e renováveis é o posicionamento de portfólio”, explica o desenvolvedor de negócios para a área de energia distribuída da Siemens, Marco Navarro. Um exemplo na empresa é a produção de equipamentos de armazenamento de energia eólica e solar, que não têm produção firme.

A Weg informa, sem divulgar números, que investe fortemente nos segmentos eólico e solar. “Acreditamos no potencial do mercado a ponto de termos criado uma diretoria de novas energias, com destinação de recursos específicos para a área”, conta João Paulo Gualberto da Silva, diretor da nova divisão. Um dos resultados é a criação de um eletrocentro, que serve para preparar a energia captada por módulos solares para ser distribuída, ampliando a densidade de potência.