04/09/2017

Europeus e chineses mostram interesse pelo setor elétrico

linhas ons brasil

Diferentemente dos últimos grandes movimentos de aquisições no setor elétrico, protagonizado por companhias chinesas, basicamente State Grid e CTG, o processo em curso de privatizações no segmento deverá ter participação ativa de tradicionais companhias energéticas europeias, como a italiana Enel, a francesa Engie e a espanhola Iberdrola. Parte dessa diversificação de potenciais interessados é explicada, segundo especialistas, por uma melhora da expectativa do cenário econômico brasileiro e principalmente do ambiente regulatório do país.

“A recente incorporação da Elektro pela Neoenergia mostra o compromisso da Iberdrola de se estabelecer ainda mais no país”, afirma o advogado Maurício Santos, especialista em infraestrutura, petróleo e gás, energia e relações governamentais do escritório Souza Cescon.

A leitura é que há negócios suficientes para todos. O processo de privatizações no setor elétrico envolve mais de 20 gigawatts (GW) de capacidade de projetos que podem ser vendidos – volume equivalente a quase 14% do parque gerador total do país ou a quase duas usinas do porte de Belo Monte, no Pará – além de um grupo de ativos de transmissão da Eletrobras.

No foco das empresas de energia privadas estão ativos operacionais (usinas e linhas de transmissão), além de distribuidoras de energia. Nesse caso, estão incluídas as seis distribuidoras do Norte e Nordeste que a Eletrobras planeja privatizar até o fim do ano e a elétrica fluminense Light, responsável pelo fornecimento de energia para a região metropolitana do Rio de Janeiro.

Um dos principais cotados a fazer proposta pelas distribuidoras da Eletrobras é a Equatorial Energia, especializado em recuperar distribuidoras problemáticas. Já para a Light espera-se uma concorrência mais acirrada. Mas o principal candidato é a Enel, pelo potencial de sinergia, já que a empresa é dona da distribuidora situada ao lado da Light, a Enel Distribuição Rio (antiga Ampla Energia), que abastece parte da região metropolitana, a Baixa Fluminense e o interior do Estado. Vale lembrar que a Enel venceu no ano passado o leilão de privatização da Celg, distribuidora goiana que pertencia à Eletrobras e ao governo de Goiás.

Questionado sobre o interesse na Light, Carlo Zorzoli, presidente da Enel, afirmou que a empresa olha todas as oportunidades no mercado, sem comentar casos específicos. Segundo ele, mais importante do que o perfil do ativo são as condições para a sua venda.

No caso da pulverização das ações da Eletrobras, apesar da repercussão positiva do mercado, especialistas avaliam que o processo está conturbado e confuso. O governo pretende anunciar em setembro a modelagem do negócio. “O governo anuncia muitas coisas em intervalos curtos, gerando notícias positivas, mas de difícil concretização”, disse fonte do setor.

Para as distribuidoras da Eletrobras, a preocupação é com relação ao prazo até o fim do ano dado pelo conselho de administração da estatal. Isso porque, no caso da Amazonas Distribuidora de Energia, ela precisa equacionar a dívida em aberto com a BR Distribuidora pela compra de combustíveis para geração de energia.

Outro motivo de preocupação com relação às privatizações é o leilão de quatro hidrelétricas da Cemig cujas concessões se encerraram, marcado para 27 deste mês. O negócio é complexo e carrega risco jurídico significativo, porque a Cemig busca na Justiça o direito de renovar a concessão de três dessas usinas, enquanto, em paralelo, tenta solução com a União para manter o controle desses ativos.

Embora passe a encarar concorrentes de outras nacionalidades, os chineses devem ter forte presença nos leilões. A State Power Investiment Corporation (SPIC) foi escolhida entre as chinesas para entrar no leilão das quatro usinas hoje operadas pela Cemig.

Outra chinesa, a China Three Gorges (CTG), que arrematou as usinas paulistas de Jupiá e Ilha Solteira em 2015, e o grupo CPFL (hoje controlado pela State Grid) manifestaram interesse firme em ficar com as hidrelétricas. Um assessor da presidência da república procurado pelas empresas lembra, no entanto, que as chinesas raramente competem entre si. De acordo com ele, a SPIC foi designada para a disputa, se o leilão for mantido.

No caso das linhas de transmissão de energia, onde a State Grid já foi destaque em leilões anteriores, a expectativa é ter novamente presença maciça dos chineses. No último leilão, em abril, 31 dos 35 lotes foram arrematados e houve estreantes no setor. Isso deve se repetir na próxima licitação, no fim do ano, conforme avaliam autoridades.