26/09/2017

Mineradoras enfrentam novos desafios para a sustentabilidade

Fonte: Valor Econômico

Há um duplo desafio para a indústria de mineração brasileira. O acidente da Samarco abalou a credibilidade do setor e força as empresas a atuar sob uma nova ótica em que a sustentabilidade tem de estar ainda mais inserida na agenda corporativa. As mineradoras terão de reinventar sua licença social, se reaproximar das comunidades, criar indicadores que mostrem seu impacto e inserir as métricas sustentáveis nas decisões dos principais executivos.

“As empresas terão de fazer mais em sustentabilidade porque o processo de licenciamento se tornará mais difícil e há um desafio adicional: a atividade de mineração será ainda mais fundamental em uma economia de baixo carbono, porque cobre e lítio são metais usados em tecnologias inovadoras como carros elétricos. A mineração crescerá e em áreas ainda mais remotas”, observa o economista alemão Nicolas Maennling, pesquisador sênior do Columbia Center on Sustainable Investment, de Nova York, que participou da Exposibram.

Para o presidente da Anglo American, Ruben Marcus Fernandes, o acidente com a barragem da Samarco, em Mariana (MG), fez a indústria perder credibilidade, o que força a atuação sob outra ótica. No caso da empresa, foi criado um comitê interno para disciplinar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (criados pela Organização das Nações Unidas em 2015 e que estabelecem metas sociais, ambientais e econômicos). “Estamos avaliando as nossas ações, quais as lacunas e como podemos incluir na gestão e aí iremos ver o que temos de priorizar em cada uma das comunidades em que operamos. A era de exuberância de lucros na mineração ficou para trás e agora gerar lucro para a sociedade será ainda mais essencial.”

Marcus Fernandes aponta que dois dos principais desafios, além de incluir os objetivos sustentáveis nas metas dos executivos, são traduzir o que as mineradoras fazem para as comunidades locais, que muitas vezes têm preconceitos sobre a atividade, e usar indicadores que reflitam a realidade e não sofram com viés político.

“Nosso papel será reverter a perda de credibilidade que a indústria sofreu nos últimos meses”, afirma. O uso de indicadores tradicionais, como Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), terá de ser acompanhado com outros dados que terão de ser representativos e ter credibilidade.

Há dois outros obstáculos: o ciclo político e a falta de planejamento de longo prazo dos gestores públicos e da população, segundo Maristela Marques Baloni, representante residente assistente para o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). “A empresa faz planejamento de longo prazo, se articula, mas falta a outra ponta, o setor público, a descontinuidade política é um problema porque a empresa não preenche o vácuo dos gestores políticos nem deve fazê-lo”, afirma. Maristela conta que trabalha na criação de metolodogia de cálculos para avaliar o custo de inação e o impacto do valor investido.

Para Liesel Filgueiras, gerente da Fundação Vale, o trabalho se torna mais complexo porque as mineradoras trabalham em áreas remotas em que os indicadores sociais são baixos e a população tem demandas urgentes de curto prazo, além de não terem conhecimento de direitos humanos básicos. “Isso torna ainda mais complicado as pessoas e os gestores públicos terem uma visão de médio e longo prazo para a sua comunidade, isso também complica que elas tenham conhecimento dos objetivos sustentáveis e do que estamos fazendo”.

Considerada a capital mundial da celulose, Três Lagoas (MS) assistiu nos últimos dez anos à sua população triplicar para 110 mil habitantes, com investimentos de mais de R$ 7 bilhões recebidos nos últimos anos. O desafio da Fibria, uma das gigantes instaladas na cidade, foi construir um planejamento de longo prazo para o município com envolvimento dos gestores públicos e da população. A empresa bateu à porta do Banco Mundial, que pela primeira vez financiou estudos de impacto de mudanças climáticas, de economia de carbono e de mancha urbana para uma cidade de interior do Brasil. Ainda firmaram-se parcerias com o BNDES, Caixa Econômica Federal e foi desenhado um planejamento de 30 anos para a cidade, que está disponível na internet para qualquer interessado ler.

“Além dos estudos, pesquisadores foram às ruas para ouvir a população e checar quais as preocupações e os desejos, aí foram desenhadas as prioridades e montado um comitê gestor com a sociedade civil para acompanhar como as metas estão sendo cumpridas. Esse é um exemplo de uma outra indústria, mas que também poderia ser usado em mineração. As pessoas precisam saber que existem casos de sucesso que podem ser replicados”, diz Cloves Otávio Nunes de Carvalho, diretor presidente do Instituto Votorantim, que frisa que o grande desafio é envolver a população nos objetivos sustentáveis traçados pelas empresas. “O papel das empresas pode ser de incentivar que as pontas possam se unir”.

A Votorantim, a empresa tem CNPJ em 413 municípios do Brasil. Além de definir prioridades para atuar, a empresa enfrenta em alguns casos obstáculos como a construção de uma agenda social nas cidades. “Há lideranças locais que manipulam as informações e colocam seus interesses pessoais acima dos públicos, essa formação de interlocutores nas cidades é um processo importante e que exige o envolvimento da população.”