23/10/2017

Energia alternativa no radar das petroleiras

Fonte: Valor Econômico

Um consenso enfático em torno da busca por energias alternativas apareceu pela primeira vez dentre os interesses dos executivos de petróleo e gás no mundo todo. Levantamento feito pela consultoria A.T. Kearney durante o primeiro semestre – e ainda inédito no Brasil – com o setor mostra que para 22% a construção de um portfólio com energias alternativas ganhou significância neste ano.

É a maior proporção de respondentes dentre uma série de motivos pelos quais as companhias e investidores buscariam fusões e aquisições em 2017. Em segundo lugar, aparecem empatados os temas “assegurar capital para projetos com vendas de ativos” e “melhorar a estrutura de capital e a liquidez com vendas de ativos”, com 16% – dois temas recorrentes desde que o preço do petróleo começou a desabar.

“É uma tendência para o futuro”, explica Sergio Eminente, diretor da consultoria para o setor no Brasil. “O negócio principal vai continuar sendo a exploração e produção de petróleo, mas já começa a se desenhar o desejo de trocar matriz fóssil por elétrica, energias mais limpas. Como se preparar para investir nisso?”

Se for levado em conta que outra questão com alta importância no estudo é a de vendas de ativos para levantar fundos, talvez haja até troca de portfólio – mesmo que ainda tímida. Os agentes do mercado também estão em busca de novas capacidades, como, por exemplo, o uso de processos digitais. Dos entrevistados, também 16% viram esse tema com maior relevância em 2017.

O estudo da A.T. Kearney mostra que o ritmo de fusões e aquisições em petróleo e gás atingiu seu maior ritmo desde 2014 durante 2017. Naquele ano e no seguinte, depois que a cotação do barril do Brent foi de US$ 112 para US$ 57, diversas transações foram canceladas. Segundo o levantamento, operações valendo até US$ 106 bilhões foram completamente abandonadas em vista da falta de perspectiva de estabilização dos preços.

“Agora, parece que há mesmo um reequilíbrio de oferta e demanda. Não temos nenhuma projeção formal, mas trabalhamos com um cenário de preços entre US$ 40 e US$ 50 daqui para frente”, diz o diretor da consultoria. “A curva de desaceleração do consumo de petróleo provavelmente não será muito rápida.”

O cenário mais pessimista é do “think tank” do setor RethinkX, que prevê pico da demanda mundial em 2020. Já as gigantes produtoras veem fôlego até a década seguinte. A britânica BP, por exemplo, acredita que o pico chegará só após 2040.

No levantamento, a A.T. Kearney mostra que os grupos que aparecem com mais interesse neste ano para buscar ativos são fundos soberanos e de participações. Pelo menos metade dos fundos de “private equity” acredita que vai adquirir mais em 2017. Já as gigantes multinacionais do setor e as independentes maiores voltam ao mercado atrás de um processo de consolidação.

“Os fundos de private equity, inclusive, já estão olhando mais para toda a cadeia, depois de focar mais em transporte [uma área menos afetada pela queda dos preços]”, comenta Eminente. “O retorno dos projetos é maior e mais garantido, então eles buscam entrar, embolsar esse retorno e depois sair do negócio.”

O Brasil deve se beneficiar dessa maior disponibilidade de capital e da percepção de estabilidade no setor, opina o diretor da A.T. Kearney. Mesmo a crise política ainda dando sinais de ida e volta, ele acredita que os investidores já entenderam que não haverá uma ruptura grande na economia de uma hora para a outra. O grande teste da atratividade – e de quão estável se vê o país – serão a segunda e terceira rodadas do pré-sal, marcadas para sexta-feira.

Mas se empresas estão olhando mais atentamente o mercado para voltar às compras, o especialista aposta que não há como deixar de lado a grande preocupação dos últimos anos: o enxugamento das operações, para serem mais eficientes. “Petróleo é um investimento de tiro muito longo. Se quiser intensificar ganho de receita ou corte de custo, a companhia tem de arrumar a casa”, diz Eminente.