17/11/2017

CoP-23 deixa claro que o mundo está longe de conter o aquecimento

Fonte: Valor Econômico

A conferência do clima da ONU deve terminar neste fim de semana em Bonn, na Alemanha, sem dramas e com textos técnicos de muitas páginas sobre as regras do Acordo de Paris, que terão que ser enxugados em 2018 e aprovados na próxima conferência, na Polônia. A CoP-23 entregará o que se esperava dela. O planeta, contudo, está bem longe de cumprir a meta de limitar o aquecimento global.

“Estamos distantes de alcançar as metas climáticas do Acordo de Paris. A cada ano que passa lançamos mais carbono na atmosfera, e isso nos aproxima de uma mudança climática catastrófica”, diz Mark Lutes, chefe da delegação do WWF na conferência de Bonn.

Segundo a ONU Meio Ambiente, os cortes de emissões descritos nas promessas feitas pelos países em Paris representam apenas um terço da redução necessária para colocar o mundo na rota de limitar o aumento da temperatura a algo abaixo de 2°C.

“Isso significa que, apesar do Acordo de Paris, estamos ainda na direção da espiral da mudança do clima fora de controle”, diz Jan Kowalzig, conselheiro de política climática da ONG Oxfam. “Isso não é destino. O desastre ainda pode ser evitado”.

O caminho é sabido: aumentar o uso de energias renováveis, desistir de subsidiar combustíveis fósseis, abandonar gradualmente o carvão como fonte energética.

“A cada ano fica mais difícil limitar o aquecimento global dentro de limites seguros. O tempo é o recurso mais precioso que temos. Não podemos desperdiçá-lo por falta de ambição e nem por retrocessos na agenda de clima de qualquer país”, diz Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima, a maior rede de ONGs que atua no tema no Brasil, referindo-se ao governo Trump nos EUA.

As regras do Acordo de Paris negociadas em Bonn têm muitas páginas. Em mitigação são 180. O mecanismo de transparência na contagem de emissões e no financiamento, costurado por negociadores dos EUA e China, tem 46 páginas. Os textos trazem uma compilação de visões, muitas vezes contraditórias. Isso terá que ser reduzido em 2018, transformado em texto de negociação, e acertado na CoP da Polônia.

“O ano que vem é crucial”, diz Lutes. No encontro da Polônia acontecerá também o Diálogo de Talanoa, uma espécie de fórum para analisar onde o mundo está no cumprimento de suas metas e, esperam os ambientalistas, será uma oportunidade de aumentar a ambição e acertar o rumo. “Talanoa será fundamental para enviar um sinal ao mundo de que a ação dos países têm que ser mais forte e as metas climáticas, mais ambiciosas”, diz Lutes.

A CoP-23 foi marcada pelos eventos que aconteceram fora das salas oficiais de negociação. Houve muito movimento de grupos empresariais, cidades e governos locais, principalmente no caso da coalizão americana “We Are Still In”, que enfrenta a política contrária ao Acordo de Paris do presidente Donald Trump.

“Sabemos onde estamos e o que precisamos fazer para evitar o pior, mas falta liderança política”, afirma Alden Meyer, diretor da Union of Concerned Scientists (UCS), uma entidade de cientistas.

“Não há dúvida de que temos que nos mexer muito mais rapidamente e fazer muito mais”, afirma Jens Mattias Clausen, chefe da delegação do Greenpeace na CoP-23. “Esperávamos que haveria mais apoio aos países vulneráveis [ao aquecimento global] nesta conferência, que pela primeira vez foi presidida por um país-ilha [Fiji], mas não foi assim”, continua.

“Infelizmente, Bonn não negociou apoio financeiro para a recuperação das perdas e danos causadas pela mudança do clima”, diz Kowalzig, da Oxfam. “Furacões devastaram o Caribe, tempestades e inundações destruíram milhares de casas e escolas no Sudeste Asiático, a seca deixou milhões com fome na África. Esta conferência deveria ter encontrado formas de gerar recursos financeiros para apoiar estas comunidades agora e no futuro”, continua. “É inaceitável que os países ricos tenham bloqueado qualquer avanço neste sentido”.