08/11/2017

Triunfo da eficiência

Fonte: Brasil Energia

Cogeração a gás está perto de deixar de ser uma fonte seletiva para se tornar uma solução mais acessível

Historicamente visto pelo mercado brasileiro como um produto de nicho, aplicável ao atendimento de necessidades bem específicas do comércio e indústria, a cogeração a gás natural está perto de perder esse rótulo seletivo, para tornar-se uma solução de maior alcance e de acesso menos complicado. Conjugar numa única central de utilidades geração de eletricidade, e produção de calor e frio – incluindo água quente e gelada − deverá, em breve, tornar-se a melhor alternativa para o uso eficiente da energia e também fonte de renda extra.

Sim, continuará sendo projetada sob medida para cada perfil de cliente – não há uma usina igual a outra − mas o ambiente negocial e regulatório nunca esteve tão favorável à adoção desse pacote tecnológico.

Os sinais positivos são vários e vão desde a reforma no marco regulatório do setor elétrico, que, tudo indica, beneficiará a geração distribuída junto da carga, até o aumento da oferta de gás, a valores mais camaradas.

Do lado negativo, mas que também serve de incentivo, há as tarifas cada vez mais salgadas do mercado regulado, devido à estiagem prolongada, que obriga ao acionamento de termelétricas mais caras e poluentes movidas a óleo diesel, até incertezas muito incômodas em relação a projetos de transmissão de energia, cujo sucesso apresentado nos leilões do governo, por enquanto, mesmo com todo o esforço da Aneel, ainda não se traduziu no cumprimento pontual dos cronogramas.

Relatório recente do Ministério de Minas e Energia (MME), por exemplo, constata que, nada mais, nada menos do que 49% dos 399 projetos em construção estão atrasados, deixando empreendimentos de geração eólica sem poder operar. Furnas, Eletronorte, Chesf e Copel GT foram, aliás, inabilitadas de participar do próximo leilão previsto para dezembro porque acumulam centenas ou, dependendo do caso, milhares de dias de atraso.

Ainda do lado da transmissão, após as falhas fatais cometidas pela Abengoa em linhas que deveriam escoar para o Nordeste parte da produção da hidrelétrica Belo Monte (PA − 11.233 MW) − e que nem sequer saíram do papel −, o setor elétrico recebeu, perplexo, a notícia de que o sistema de aterramento de um dos bipolos de corrente contínua do complexo de usinas do rio Madeira (Jirau e Santo Antônio, RO − 7.318 MW) vai ter de ser refeito.

O atual apresenta grave risco de colapso, num momento em que o Sistema Interligado Nacional (SIN) está mais vulnerável em razão do nível abaixo da média histórica dos reservatórios das grandes hidrelétricas. Foi determinada uma limitação, portanto, no escoamento pleno, entre a região Norte e o Sudeste/Centro-Oeste, para evitar que uma sobrecarga cause a perda eventual do linhão.

É evidente que o Operador Nacional do Sistema (ONS) está se desdobrando para que isso não venha a acontecer, mas não é de agora que se sabe que as interligações de longa distância construídas em HVDC (Hight Voltage Direct Current), mesmo com toda a tecnologia desenvolvida pelos fabricantes, precisam operar dentro de parâmetros estreitos, exigindo precisão apurada de desempenho. Ocorre que o SIN, mesmo controlado com muita competência pelo ONS, nunca teve de enfrentar a atual oscilação de grandezas elétricas, causada pela inserção crescente de geração eólica, fonte intermitente por natureza.

Mesmo antes desse atual panorama operacional do setor, na primeira década dos anos 2000, logo após o racionamento de 2001, muitos gestores pioneiros partiram para soluções mais arrojadas. Diante do risco que a falta de energia passou a representar ao dia a dia de seus negócios, resolveram, mesmo que num cálculo apertado quanto ao retorno de investimento, garantir seu suprimento próprio de energia e demais utilidades.

Foi o caso da Rede Globo, com o Projac, de hotéis premium de grandes redes internacionais, como a francesa Accor, e de edifícios corporativos de alto padrão como o complexo Rochaverá, em São Paulo. Durante os diversos episódios de extensas falhas regionais dos sistemas de transmissão ou mesmo de problemas locais nas redes das distribuidoras, nenhum desses empreendimentos deixou de tocar normalmente suas atividades, se destacando como “ilhas de exceção” em meio à quase paralisia urbana em momento de blecaute. Preparados da mesma forma, alguns grandes shopping centers conseguiram contornar essas situações sem que precisassem encerrar completamente as suas atividades.

Mas, além da garantia de suprimento de energia, um dos benefícios mais atrativos dos sistemas de cogeração é a possibilidade de poder contar com eletricidade a preços competitivos, o que no horário de ponta do sistema, com tarifas mais altas, faz toda a diferença, já que, em geral, o cliente paga um valor contratual mensal que, além de mais vantajoso financeiramente – em relação ao consumo direto da rede−, permite uma previsibilidade no planejamento das despesas operacionais.

Não é preciso nem fazer o investimento nas plantas, porque empresas especializadas cuidam disso e negociam, sob medida, o pacote de utilidades de que o cliente necessita. Sem falar que o fornecimento de gás, que já passou por flutuações mais bruscas de custo no passado, hoje se caracteriza por tarifas mais estáveis e uma confiabilidade de suprimento muito superior à da rede elétrica, principalmente em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

Potencial subutilizado

“Estamos passando por um momento bem positivo para a expansão da cogeração”, comemora Marcelo Mendonça, Gerente de Planejamento Estratégico e Competitividade da Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás). A economia volta se recuperar, avalia, e já se percebe um aumento da utilização da capacidade ociosa nas indústrias, outro setor em que a modalidade traz benefícios muito consistentes, principalmente em segmentos como alimentício, têxtil, bebidas e químico, grandes demandantes de vapor para processos, utilidade que também pode ser obtida em sistemas de cogeração. Mendonça estima que o consumo de gás para cogeração em 2017 já está 4,1% superior ao verificado em 2016, na faixa de 2,5 milhões de m3/dia.

“Estamos numa situação em que a energia elétrica está muito cara. Então hoje, confirmada a bandeira vermelha, segundo patamar, para novembro, a cogeração acaba sendo muito competitiva”, explica o gerente da Abegás, lembrando que o potencial da modalidade no país ainda é subutilizado. Para se ter uma ideia, no Brasil como um todo há apenas 200 clientes se valendo de sistemas desse tipo. Entre os pontos positivos ainda pouco explorados estão a geração próxima da carga. Se houvesse uma maior distribuição de plantas, entende, isso evitaria a movimentação frequente de grandes blocos de energia por meio das linhas de transmissão, fazendo “o elétron passear do Sul ao Nordeste”, por exemplo.

O otimismo de Mendonça, no entanto, vem do fato de que, entre as propostas para reforma do marco regulatório do setor elétrico, há possibilidade de que o governo venha a propor um sinal locacional, valorizando assim a geração distribuída, e dando indicações de que está disposto a cortar incentivos, favorecendo a competitividade entre as fontes. Além disso, a adoção da tarifa cobrada de acordo com o horário de consumo pode levar a uma mudança substancial na forma de gerenciar a carga. Ele acentua ainda que a cogeração pode ajudar o ONS a compensar a intermitência das fontes renováveis, reduzindo substancialmente a necessidade de acionamento de térmicas a óleo, muito mais dispendiosas para o sistema.

O financiamento de equipamentos que são usados na montagem das plantas, segundo Mendonça, é mais um detalhe importante que precisa de mais atenção do governo. Como os principais componentes são importados, representando praticamente 50% do valor das plantas – caso dos geradores e dos chamados chillers de absorção –, o BNDES não financia essa parte. “Isso precisa ser melhor trabalhado. Ou seja, desenvolver uma linha de financiamento estabelecendo marcos para a indústria nacional começar a fabricar localmente.”

O Plano Decenal 2026, comenta, por sua vez, Newton Duarte, presidente Executivo da Associação da Indústria da Cogeração (Cogen), prevê que algo da ordem de 6 GW a 7 GW de termelétricas devam ser substituídas por usinas com ciclo combinado de alta eficiência, categoria em que a expansão da geração distribuída a gás, mais a longo prazo, pode ser enquadrada, segundo entende. Há 1 milhão de m3/dia desse combustível disponível nas grandes distribuidoras de gás natural de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, pronto para ser contratado pelos interessados, garante. Volume esse que, com a queima cada vez menor por parte da Petrobras – fora a oferta que está por vir em novos empreendimentos –, tende a aumentar. Hoje são queimados 5 milhões de m3/dia de gás associado, a menor marca histórica, destaca.

De acordo com Duarte a rede elétrica vai ser cada vez mais backup e não fonte principal. “O autoprodutor vai gerar mais do que consome, liquidando excedentes ao valor do PLD [preço da liquidação das diferenças]”, diz, referindo-se à possiblidade, já prática comum no mercado, de o consumidor livre, que também dispõe de sistema de cogeração, abater sobras do seu contrato, que são repassadas ao mercado pela própria comercializadora com a qual mantém vínculo. Hoje, por enquanto, as empresas de cogeração não podem vender energia para o grid porque não há regulação específica para essa operação. Trata-se de uma das principais reivindicações de longa data do segmento, já que as plantas podem fornecer suprimento entre R$ 400/MWh a R$ 600/MWh, enquanto as usinas térmicas a diesel custam acima de R$ 1 mil/MWh.

O último levantamento, feito pela Cogen na década passada, do potencial nacional de cogeração nos vários segmentos da economia, apontou 2,7 GW na indústria mais 800 MW no comércio, montantes que, segundo Newton Duarte, sem dúvida estão superados e vão ser revistos em novo levantamento que a entidade vai começar a fazer em breve.

Embate de gigantes

Para se ter uma ideia de como o mercado brasileiro de cogeração a gás é bastante promissor, basta verificar que hoje há duas multinacionais japonesas gigantes disputando clientes. Ambas ancoradas nas duas mais tradicionais empresas do segmento, que construíram uma sólida trajetória de investimentos tanto com empreendimentos para o segmento industrial como para o comercial. De um lado está a Mitsui, controladora da Ecogen, e do outro, nada mais, nada menos do que a Panasonic, dona da Union Rhac.

A primeira, sócia da Petrobras em várias concessionárias estaduais de distribuição de gás canalizado, quer estar presente nas pontas de fornecimento e de consumo. Já a segunda, fabricante global de equipamentos de refrigeração e de chillers – aparelho que nas plantas de cogeração transforma calor em frio –, está interessada em garantir uma fatia de mercado para seus produtos.

A Ecogen, informa Denrick Paoli de Jesus, gerente de Marketing e Novos Negócios, possui um portfólio de 86 MW em projetos de cogeração movidos a gás, em sua maioria concentrados no segmento comercial e em prédios corporativos. O consumo atual gira em torno de 167 mil m3/dia. Agora a ideia é diluir o risco, aproveitando novas oportunidades que estão surgindo na área industrial.

“Trabalhamos no sistema BOT (Build Operate and Transfer) em que nos encarregamos do investimento e fazemos contratos de longo prazo com clientes, com duração de dez a 15 anos.”

Esse modelo de negócio – o mais comum no segmento −, permite, segundo ele, que as despesas sejam rateadas entre os condôminos de um shopping ou prédio corporativo, sem que seja necessário imobilizar capital em ativos de geração. Além de toda a expertise necessária no trabalho de dimensionamento das plantas – calculando com precisão as necessidades dos clientes e em relação ao fornecimento das utilidades –, um dos diferenciais da Ecogen nessa área é o gerenciamento da planta de acordo com os preços de energia vigentes no mercado livre, permitindo assim vantagens financeiras aos clientes. Ou seja, se o ACL está trabalhando com preços no patamar máximo permitido pela Aneel − como em outubro último por exemplo, na faixa de R$ 588/MWh –, é mais vantajoso fazer a planta trabalhar não só no horário de ponta, originando uma sobra que pode ser abatida no contrato da comercializadora, que, por sua vez, a revende com lucro expressivo ao mercado demandante.

Entre os maiores projetos em que a Ecogen teve oportunidade de participar, ele aponta a nova fábrica de automóveis de luxo da montadora Mercedes-Benz no município paulista de Iracemápolis. Sem condições de atendimento pela distribuidora Elektro no prazo em que precisava da linha em funcionamento, a multinacional decidiu pela instalação de uma planta de cogeração de 2,8 MW que proporciona, além de eletricidade e vapor, água gelada e ar comprimido.

Do lado da Union Rhac, relata o seu fundador e presidente José Carlos Felamingo, o faturamento em 2016 chegou a R$ 22 milhões, com expectativa de crescimento de 7% para 2017. Há planos, no entanto, de chegar a um avanço entre 20% e 30% nos próximos três anos.

A empresa gerencia cerca de 50 MW de plantas de cogeração, num universo de 240 MW de instalações que incluem unidades de geração pura, exclusivamente. “A Panasonic oferece à UR oportunidade de abertura de novos negócios na área de energia”, explica Felamingo. Embora reconheça que os negócios apresentaram altos e baixos nos últimos anos, o executivo afirma que “não vê crise nessa área e sim um mercado com muitas possibilidades”. Até porque, além de capital próprio, a empresa também trabalha com recursos de investidores particulares que acreditam firmemente nos rendimentos futuros desse segmento de negócios.

Entre os maiores projetos implantados com participação da companhia, há o sistema do São Paulo Expo, um dos maiores e mais modernos espaços de feiras e eventos da capital paulista. A instalação tem 6 MW de capacidade e foi desenvolvida em parceria com a Comgás, cuja histórica atuação no fomento do segmento é anterior ainda à aquisição do controle pela Cosan, mas agora vem recebendo novo impulso. Consultada, a distribuidora não pôde se manifestar por estar em “período de silêncio” que precede a divulgação de resultados trimestrais.

Distribuidoras dentro

Nos primórdios dos movimentos de investimento em cogeração a gás, os clientes que tentavam se aventurar no segmento enfrentavam alguma resistência das concessionárias de distribuição de eletricidade. Com medo de perder consumidores cativos de grande porte, as negociações para a contratação de energia de backup com as concessionárias – necessária para suprimento dos clientes quando da manutenção das plantas próprias ou em caso de falhas em equipamentos − não raro se estendiam por meses, segundo relatos de agentes do mercado. Hoje, segundo a Aneel e empreendedores, a situação está pacificada. O Superintendente de Regulação dos Serviços de Distribuição, Carlos Alberto Mattar, afirma desconhecer reclamações nesse sentido. Ele indica que as regras estão bem claras na Resolução 506/2012 – revisada em 2016 −, que estabelece as condições de acesso ao sistema de distribuição por meio de conexão a instalações de propriedade das concessionárias. “Com isso já atendemos a diversas solicitações, inclusive algumas alterações quanto a contratação de capacidade de reserva”, explica. Mattar esclarece que as companhias são obrigadas a atender a dois quesitos básicos. Um deles é a recapacitação da rede, se ela não tiver condição de suportar o paralelismo com a planta de cogeração. Esse investimento, no entanto, pode ser bancado pelo próprio interessado. Outro aspecto é que elas também não têm obrigação de fornecer a energia de reserva, já que esse compromisso é reservado exclusivamente aos clientes do ambiente de contratação regulada. Isso, da mesma forma, não representa obstáculo, porque agora a preferência de quem busca cogeração é justamente tornar-se cliente livre para poder aproveitar o mecanismo que possibilita o repasse de sobras pela comercializadora com a qual se firma contrato.

E agora, até mesmo as próprias distribuidoras voltaram sua atenção para o mercado de cogeração, caso da CPFL Energia – por meio da controlada CFPL Eficiência – e da AES Eletropaulo que chegou a afirmar, há alguns anos, que esse tipo de negócio não tinha nenhuma aderência aos seus planos estratégicos.

Pablo Becker, diretor da CPFL Eficiência, explica que a empresa está identificando uma série de oportunidades nesse segmento e já tem, inclusive, algumas propostas em negociação. É a primeira vez que a companhia irá trabalhar com cogeração a gás, embora já seja responsável pela gestão de várias instalações de geração de emergência espalhadas pelo Brasil. Segundo o executivo, as possibilidades de resultado para o cliente variam muito de acordo com as tarifas praticadas pelas distribuidoras locais.

“O esforço do Gás para Crescer [iniciativa coordenada pelo governo para dar novo impulso ao setor], mais a movimentação da Consulta Pública 33, é no sentido de aumentar a concorrência, a competição, colocando os preços para baixo”, avalia Becker. Ele se refere ainda ao fato de que o contrato de importação de gás da Bolívia termina em 2019 e que há uma sobra estrutural de gás natural no mercado.

Sobre a negociação com outras distribuidoras, ele informa que há um estranhamento inicial, mas que nunca enfrentou nenhum problema nas providências que vem tomando para o atendimento de futuros clientes. No desenvolvimento dos projetos, Becker explica que também conta com apoio de outras empresas do grupo, como a CPFL Serviços e a CPFL Brasil.

Esfregando as mãos

No que se refere a fabricantes de equipamentos, a cogeração a gás é vista como um filão importante de negócios, conforme contam executivos da Cummins e da General Electric.

“O conceito de eficiência energética está cada vez mais disseminado no mercado brasileiro, ou seja, a compreensão de que a eficiência global de uma unidade é mais importante do que se analisarmos de forma isolada apenas a eficiência elétrica ou a eficiência térmica”, diz Augusto Lange Tubino, engenheiro de Aplicação e Vendas Power Systems da Cummins, empresa que tem uma ampla linha de geradores movidos a gás. “Há hoje soluções tecnológicas de alta eficiência para o gás, o que é muito importante para o setor”, aponta, por sua vez, Daniel Meniuk, Diretor de Vendas da GE Power. A empresa, segundo o executivo, dispõe de vários produtos para a montagem de plantas de cogeração e gás e está atenta ao desenvolvimento desse segmento. No que se refere a geradores, em particular, há modelos de portes diferenciados, de acordo com a necessidade de cada projeto.