14/12/2017

Chineses e indianos podem dominar leilão de transmissão

Fonte: Valor Econômico

O leilão de transmissão de energia de amanhã, que vai licitar 11 lotes e envolver até R$ 8,7 bilhões em investimentos, pode ser mais uma disputa marcada por grande competição e também pela entrada de novos investidores estrangeiros. Indianos prometem ser destaque, assim como os chineses, que devem olhar os ativos que vão escoar a energia da megahidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu (PA) para a região Nordeste.

Segundo especialistas ouvidos pelo Valor, depois do leilão de abril deste ano, que contratou R$ 12,7 bilhões, a tendência é de que o certame desta sexta-feira repita o desempenho positivo, apesar de algumas mudanças nas taxas de retorno e nas condições de financiamento. Entre as empresas cotadas para participar do leilão estão Engie Brasil Energia, Taesa, ISA Cteep, Equatorial Energia, Copel e EDP Energias do Brasil.

A gigante chinesa State Grid, que está concluindo a construção do primeiro linhão que fará o escoamento da energia de Belo Monte para o Sudeste, em parceria com a Eletrobras, também está se preparando para o leilão. Ao Valor, a empresa afirmou que tem interesse em participar da concorrência e está “avaliando todos os lotes ofertados”. No mercado, o comentário é que a chinesa vai apostar as fichas nos empreendimentos situados próximos das obras do linhão, gerando ganho de escala para a companhia.

É o caso dos lotes 3 e 4, que envolvem investimentos estimados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) de, respectivamente, R$ 2,78 bilhões e R$ 1,35 bilhão, e visam solucionar o escoamento de Belo Monte.

Outro lote que pode atrair a atenção dos chineses, devido ao porte maior, é o 1, que fica no Paraná, e envolve R$ 2,017 bilhões em investimentos e 1.146 quilômetros de extensão. A Copel, no entanto, sai em vantagem neste caso, devido à localização dos projetos na região de sua maior expertise.

Além dos chineses, os indianos também prometem forte presença no certame. A Sterlite Power Transmission foi a dona do maior deságio no leilão de abril deste ano, roubando a cena ao oferecer receita anual permitida (RAP) de R$ 34,5 milhões no lote 10, com deságio de 58,87%. O presidente global da companhia, Pratik Agarwal, se reuniu ontem com o ministro de Minas e Energia, Fernando Coelho Filho. Também declararam ter forte interesse no certame as indianas Adani Transmission Limited India e a Power Grid Corporation.

“Acredito que há espaço para grande competição, as condições dessa vez são praticamente as mesmas de abril”, disse a advogada Ana Karina de Souza, sócia de Infraestrutura do Machado Meyer.

A Aneel reduziu o custo médio ponderado de capital (Wacc, na sigla em inglês) do leilão para 9,5%, ante a taxa de 10,6% aplicada na disputa de abril. Em relatório, o Bradesco BBI classificou a taxa ainda como atrativa. Considerando as receitas máximas estabelecidas pelo regulador, a taxa real de desconto dos projetos pode chegar a 10%, ligeiramente abaixo da vista no início do ano, calcularam os analistas Francisco Navarrete, Bruno Arruda e Victor Oliveira.

Para Thais Prandini, diretora-executiva da consultoria Thymos Energia, a redução do Wacc pode reduzir a margem para que os competidores ofereçam deságios em relação à receita máxima. “Mas ainda assim a competição será grande”, disse.

Enquanto o Wacc ficou menor, o BNDES flexibilizou as condições de financiamento para esse leilão. Diferentemente das condições aplicadas para os últimos dois leilões, em que o banco negociou financiamento para os setor de transmissão a taxa de mercado, agora o investidor poderá escolher entre IPCA e TLP. Além disso, com relação ao financiamento de máquinas e equipamentos, o cliente poderá optar pelo financiamento em TJLP, além de TLP e IPCA.

A Engie, que confirmou ao Valor a participação no certame, deve considerar o uso do BNDES, pois o custo do banco está próximo ao de mercado. O presidente da companhia, Eduardo Sattamini, não revelou quais os lotes que despertam maior interesse da elétrica. “As preferências, como no leilão anterior, são por lotes onde temos alguma vantagem competitiva, ou seja, operações próximas, conhecimento específico, etc”, afirmou.

Mantendo seu perfil de discrição, a Equatorial Energia demonstrou interesse pelo leilão de sexta-feira, mas não detalhou sua estratégia para o certame. A parceira da Equatorial no certame de transmissão de outubro do ano passado, no qual a elétrica contratou cerca de R$ 3 bilhões em investimentos, foi a Andrade Gutierrez, que também está se estruturando para a concorrência dessa semana, negociando pré-contratos com alguns investidores. A empresa, porém, não revelou se terá nova parceria com a Equatorial. “Nosso time de engenharia estudou bastante os projetos e estamos entrando com players importantes. E temos muita ciência de que o preço que daremos é competitivo”, disse o diretor Financeiro e de Relações com Investidores da Andrade Gutierrez Engenharia, Gustavo Coutinho.