06/12/2017

Chuva ajuda geração elétrica, mas alerta persiste

Fonte: Valor Econômico

A ocorrência de um volume de chuvas acima do esperado nas últimas semanas de novembro animou as autoridades e as empresas do setor elétrico, com perspectivas de melhoras no cenário climático e nas condições de operação do sistema, às vésperas dos meses mais chuvosos. Mas ainda há preocupação com relação ao baixo nível dos reservatórios hidrelétricos e receio sobre a intensidade do próximo período úmido, o que pode demandar a operação de uma quantidade maior de termelétricas.

É diante desse quadro, que o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), que reúne as principais autoridades do setor de energia do país, realiza hoje sua reunião ordinária mensal.

O Valor apurou que, apesar da melhora das condições de operação do sistema, os integrantes da cúpula energética do governo Temer ainda estão cautelosos. O entendimento é que a situação melhorou, mas ainda é necessária a ocorrência de chuvas mais intensas para recuperar os reservatórios, no período úmido, até abril.

Por isso, o comitê deve manter as reuniões extraordinárias para o acompanhamento das condições operacionais do Sistema Interligado Nacional (SIN). O próximo encontro do tipo está previsto para a semana que vem.

Segundo o coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), da UFRJ, Nivalde de Castro, a tendência é que o CMSE desligue as termelétricas, já que o período úmido está se firmando. Mas, segundo ele, a perspectiva pode mudar a cada semana, dependendo da ocorrência das chuvas.

A opinião de Castro é compartilhada por outros especialistas. De acordo com projeções da consultoria GV Energy, a expectativa é que o volume de chuvas no país nos quatro primeiros meses de 2017 seja da ordem de 90% da média histórica para o período, condição que traria alívio à operação do sistema e ao déficit de geração de usinas hidrelétricas, medido pelo GSF (sigla em inglês para fator de ajuste da garantia física).

“A situação dos reservatórios ainda não é confortável, principalmente para o submercado Nordeste, tendo em vista que a pré-estação chuvosa foi muito ruim, entretanto, com a expectativa de melhora no cenário de vazões, a tendência é de recuperação dos reservatórios ao longo dos próximos meses”, informou a GV Energy, em relatório sobre o assunto.

Na mesma linha, o Santander acredita que, se o volume de chuvas para o início do próximo ano ficar entre 80% e 90% do histórico para o período, a bandeira tarifária permanecerá na cor vermelha patamar 1, com possibilidade de mudança para cor amarela caso o volume de chuvas alcance 95% do histórico. Com isso, o banco espera que não haja pressão tarifária por causa das bandeiras, nem um custo extraordinário de GSF para as distribuidoras, com relação à energia das hidrelétricas sob regime de cotas, diferentemente do cenário observado nos últimos meses.

“A ideia é que não vemos a tarifa de energia elétrica, se mantida essa quantidade [proporcional] de chuvas de novembro, como um risco de pressão inflacionária”, explicou a analista Tatiana Pinheiro, do Santander.

Já a consultoria Thymos Energia tem uma visão menos otimista: embora as chuvas tenham causado um acréscimo de 0,8% no volume de acumulação dos reservatórios hidrelétricos do subsistema Sudeste/Centro-Oeste e de 0,6% nos lagos das usinas do Nordeste, entre 21 e 30 de novembro, as regiões Sul e Norte tiveram, no mesmo período, redução do nível de estoque de 0,3% e 1,6%, respectivamente, resultando em melhora pouco relevante nos níveis do SIN.

A consultoria recomenda uma postura mais conservadora do CMSE com relação ao nível de armazenamento dos reservatórios e de operação de termelétricas.

“Em junho também ocorreu esse movimento [de melhora momentânea das condições climáticas e, nas semanas seguintes, voltou a escassez de chuvas]. Entendo que o CMSE deve se posicionar no sentido de manter as térmicas ligadas”, disse João Carlos Mello, presidente da Thymos. Segundo ele, desligar um bloco de energia de 6 gigawatts (GW) neste momento, pode perpetuar o quadro de baixo nível dos reservatórios para o próximo ano. Recentemente o CMSE determinou o desligamento de 5 GW de térmicas, passando de 15 GW para 10 GW em operação.

Para o presidente do Instituto Acende Brasil, Claudio Sales, a hidrologia melhorou, mas os efeitos não são tão imediatos. “Para o CMSE de amanhã esperamos alguma sinalização de melhora, mas nada muito grandioso, dado o nível baixo em que os reservatórios estão neste momento”, afirmou o especialista. “Não esperamos grandes surpresas, mas os sinais são positivos, como reflexo da chuva que veio, tardiamente, mas veio. Isso em alguma medida já se refletiu no PLD, e a sinalização é que continue por aí, com a perspectiva até de redução da bandeira tarifária nos próximos meses”, completou.