28/02/2018

Neoenergia prevê investir € 5 bi no Brasil nos próximos cinco anos

Fonte: Valor Econômico

A Neoenergia, elétrica controlada pelo grupo espanhol Iberdrola, deve investir € 5 bilhões (o equivalente a cerca de R$ 20 bilhões) no Brasil entre 2018 e 2022. O montante, estimado pelo presidente do conselho de administração da empresa e presidente mundial da Iberdrola, Ignacio Galán, é referente ao plano de crescimento da companhia no país, que inclui projetos “greenfield” (a ser construído a partir do zero), principalmente de geração e transmissão de energia. A cifra, porém, pode aumentar, caso o grupo faça alguma aquisição no Brasil.

“Somos uma companhia que sente liberdade de olhar, se houver oportunidades rentáveis, ativos para construir ou ativos ‘brownfield’ [já em operação]”, afirmou o diretor-presidente da Neoenergia, Mario Ruiz-Tagle, em sua primeira entrevista desde que assumiu o cargo, há cinco meses. “Se forem ativos que têm oportunidade de acrescentar eficiências [à empresa], nesse caso são ativos que olhamos” completou o executivo.

Questionado sobre as distribuidoras que a Eletrobras pretende vender no fim de abril, o executivo explicou que “esse é um processo do qual vem se falando há muitos anos, mas, para nos pronunciarmos de alguma maneira, é preciso uma forma concreta, um edital, umas condições [definidas]”.

O chileno, que desde 2002 atua pela Iberdrola no Brasil, onde chegou a ocupar o cargo “country manager” em 2010, reforçou a estratégia definida por Galán de que a Neoenergia será o veículo de novos investimentos do grupo espanhol no país.

Essa estratégia teve início em setembro, após a incorporação da Elektro, que era 100% Iberdrola, pela Neoenergia. Com o negócio, a companhia espanhola ampliou sua participação na Neoenergia para 52,45%. Os demais sócios, Previ e Banco do Brasil, passaram a ter 38,2% e 9,35%, respectivamente.

A condição de controlador, aliás, é indiscutível para o grupo Iberdrola. O objetivo da companhia no Brasil é investir em empresas ou ativos em que ela seja controladora e responsável pela operação. Por esse motivo é que a Neoenergia tem o desejo de vender sua fatia de 10% na Norte Energia, empresa responsável pela hidrelétrica de Belo Monte, em construção no rio Xingu, no Pará, e que terá capacidade instalada de 11.233 megawatts (MW).

“Temos publicamente comunicado ao mercado que o único ativo que temos à venda no plano de longo prazo é Belo Monte. […] É um investimento muito grande, que não controlo, [de] que sou investidor financeiro, porque não consigo mostrar no balanço o Ebitda que esse negócio está gerando. Perdeu o sentido o investimento em Belo Monte”, afirmou Ruiz-Tagle.

Em âmbito mundial, a Iberdrola possui plano de aquisições e venda de ativos que atinge valor de € 3 bilhões (quase R$ 12 bilhões), com o objetivo de reorganizar seu portfólio.

Questionado sobre o cancelamento da oferta pública inicial de ações (IPO) da Neoenergia, no fim do ano passado, Ruiz-Tagle explicou que a operação não tinha como objetivo principal levantar recursos para a companhia, e sim o interesse de alguns acionistas em vender sua participação na empresa. Ele lembrou, porém, que não houve consenso entre os acionistas e o mercado com relação ao preço da oferta, que acabou não se viabilizando.

Segundo o presidente da Neoenergia, mesmo não sendo concretizado, o IPO permitiu a divulgação de dados relevantes e planos da empresa para o mercado internacional. Ele acrescentou que, no fim do ano passado, os acionistas também aprovaram a capitalização de dividendos retidos e a emissão primária, em que os sócios colocaram mais R$ 1,1 bilhão.

Maior grupo de distribuição de energia do país em número de clientes, atendendo aproximadamente 13,5 milhões de unidades consumidoras, a Neoenergia acompanha com muita atenção as discussões na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) sobre a taxa de remuneração (o “WACC regulatório”) para o próximo ciclo de revisões tarifárias das distribuidoras, que se inicia em março deste ano e vai até 2020.

A proposta inicial da área técnica da Aneel, de redução do WACC de 8,09% para 7,71%, tem preocupado o setor, que alega que essa diminuição terá um desconto imperceptível na tarifa de energia do consumidor, porém com impacto expressivo no Ebitda e capacidade de investimento das empresas.

“Quando você faz menos investimentos, quem sofre é a rede. E, quando sofre a rede, quem sofre no final é o cliente, que acaba pagando um desconto mínimo na tarifa e uma perda de qualidade expressiva”, disse Ruiz-Tagle.

O executivo propõe que a Aneel mantenha a taxa de remuneração em 8,09% para o próximo ciclo. “Estamos confiante de que a Aneel terá uma postura mais realista, com visão de longo prazo”, afirmou, lembrando que a Neoenergia investiu R$ 10 bilhões nas distribuidoras Cosern (RN), Coelba (BA) e Celpe (PE) de 2013 a 2017.

Questionado sobre a perspectiva para o cenário econômico brasileiro este ano, Ruiz-Tagle explicou que o grupo já percebe sinais de melhora na economia. E acrescentou que, mesmo sendo um ano eleitoral, a economia tem um “certo grau de descolamento” da política. “Estamos além da disputa eleitoral”, disse.