23/03/2018

Investigação do apagão deve levar meses

Fonte: O Globo

Operador Nacional do Sistema apresentará relatório inicial em dez dias sobre blecaute que afetou 70 milhões

O Operador Nacional do Sistema (ONS) pretende apurar em cerca de dez dias as causas do apagão que deixou cerca de 70 milhões de pessoas sem energia elétrica no Norte e no Nordeste anteontem, com falhas que atingiram também outras áreas do país. A partir do relatório, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) avaliará responsabilidades da concessionária responsável pela linha de transmissão que transporta energia da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, para o Sudeste. Essa análise, segundo a agência, pode levar meses.

A concessionária Belo Monte Transmissora de Energia (BMTE) e o ONS informaram que a falha responsável pelo blecaute aconteceu num disjuntor da subestação de Xingu, que integra a linha inaugurada em dezembro do ano passado. Uma reunião na próxima segundafeira, na sede do ONS, no Rio, é que vai definir os rumos da apuração. Só depois do relatório do órgão a Aneel vai avaliar se abre um processo contra a concessionária. A empresa só será punida se as causas do problema estiverem ligadas ao descumprimento de normas regulatórias. A concessionária é controlada pela chinesa State Grid, mas tem a Eletrobras como sócia.

— Se foi falha humana vamos informar. Se for de equipamento também. Não haverá nenhum tipo de sombra sobre o que ocorreu, pois somos os maiores interessados em dar transparência para manter a confiança da população — disse ontem Luiz Eduardo Barata Ferreira, diretor-geral do ONS, que voltou a chamar o sistema brasileiro de “robusto”.

Autoridades do setor elétrico também querem saber porque o mecanismo de proteção automático do sistema de energia Norte-Nordeste não entrou em ação quando houve o problema na subestação Xingu. FALTA PREVENÇÃO O ministro de Minas e Energia, Fernando Coelho Filho, também defendeu ontem a segurança do sistema e atribuiu o apagão a um “erro de programação”. Segundo Nivalde de Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), do Instituto de Economia da UFRJ, já era esperado o aumento da carga da energia na linha em razão da maior geração de eletricidade na Usina de Belo Monte. Por isso, ele acredita que a falha foi causada por um problema técnico:

— Pelos dados já disponíveis, trata-se de um problema técnico, pois o disjuntor não conseguiu suportar o aumento da carga. Esse tipo de problema deveria ter sido previsto. Como o sistema de transmissão está aumentando no Brasil, o ONS vai aprender com o que ocorreu e melhorar o nível de exigência técnica

Para Franklin Miguel, professor do MBA do setor elétrico da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o ideal seria aumentar o investimento em circuitos alternativos, que funcionem como uma espécie de reserva quando o sistema principal tem problemas:

— Não havia um sistema capaz de manter tudo de pé após o problema no disjuntor. Além disso, o sistema de energia precisa investir mais nas interligações entre as regiões do país.