26/04/2018

Conselho retira oferta de ações e Eletropaulo terá disputa em leilão

Fonte: Valor Econômico

O conselho de administração da Eletropaulo cancelou ontem a oferta primária de ações anunciada há duas semanas, em uma reunião realizada logo depois que a Enel aumentou o valor proposto pela companhia, para R$ 32 por ação. Com a oferta, que avalia a empresa em R$ 5,3 bilhões, a italiana retomou a liderança na disputa do controle da distribuidora de energia.

A decisão da disputa, protagonizada até o momento pela Enel e pela Iberdrola, deve ser decidida apenas em um leilão na bolsa em 18 de maio. Não se sabe, neste momento, qual direção a espanhola vai tomar. O Valor apurou que a controladora da Neoenergia pode enfrentar obstáculos para aumentar seu preço, por conta de uma falta de acordo dos sócios Previ e Banco do Brasil que, juntos, somam cerca de 47% das ações da companhia.

Segundo fontes a par do assunto, a Iberdrola tinha a intenção de aumentar a sua proposta ainda ontem para R$ 33, mas a iniciativa não teve o aval dos sócios brasileiros na Neoenergia. Caso essa posição se mantenha, a única forma da espanhola aumentar sua proposta será derrubando o veto. O acordo de acionistas da companhia exige, para isso, uma recomendação de um banco de primeira linha, que teria que justificar a viabilidade econômico-financeira de uma nova elevação no preço. A outra saída seria a Iberdrola participar sozinha da disputa. O prazo, porém, é apertado para isso.

De toda forma, a espanhola tem recursos e segue com a intenção de aumentar a oferta e continuar na disputa. O Valor apurou que logo depois que a proposta nova da Enel foi tornada pública, executivos da companhia se fecharam em reuniões, com a expectativa de passarem a noite discutindo as alternativas.

Na segunda-feira, o colegiado da Eletropaulo tinha decidido manter a emissão de ações, que seria ancorada pela Neoenergia. Na data, a maior oferta que a distribuidora tinha, de R$ 29,40, era da Neoenergia, o que justificava, segundo o conselho, a decisão.

Ontem, já com a nova oferta da Enel em mãos, o conselho aprovou, por unanimidade, o cancelamento da operação. Essa era uma condição colocada pela italiana para continuar com sua oferta. A ata da reunião do colegiado diz que a decisão vai permitir “a melhor evolução da competitividade” entre as ofertas públicas de aquisição de ações (OPAs) até agora apresentadas.

Iberdrola enviou carta à Comissão Europeia se queixando da conduta da Enel no processo, com vantagem por ser estatal

Segundo o conselho, manter todas as três OPAs lançadas até agora (pela Enel, Neoenergia e Energisa), além de permitir outras novas potenciais ofertas, vai ajudar a maximizar o valor da companhia para seus acionistas, sem prejuízo do atendimento das necessidades de capitalização da Eletropaulo. O edital da OPA da Enel prevê o aporte de R$ 1,5 bilhão na companhia, ao mesmo tempo em que a Neoenergia tinha se comprometido a comprar esse mesmo valor em ações da companhia no aumento de capital.

A história repete no Brasil uma rivalidade entre as duas companhias que se acentuou na Espanha, quando a Enel, em 2009, conseguiu comprar o controle da Endesa, passando na frente de outros concorrentes.

No domingo, a Enel chegou a publicar uma carta nos principais jornais brasileiros afirmando que o aumento de capital não seria feito em um momento adequado, devido ao cenário de competição acirrada pelo controle da Eletropaulo. “Em um contexto de concorrência pela aquisição do controle da companhia, o tratamento privilegiado a um participante específico por parte da administração da companhia frustra o processo competitivo para aquisição de controle previsto na Lei das Sociedades por Ações e elimina qualquer outra alternativa para a companhia e seus acionistas. Isso resulta na destruição de valor para a companhia e seus acionistas”, disse a italiana na carta.

Do lado da Iberdrola, a carta foi alvo de críticas, uma vez que Enel participou da concorrência feita pela Eletropaulo pela ancoragem da emissão de ações. A Neoenergia venceu ao propor o preço mais alto para a operação, de R$ 25,51. Em seguida, a Enel lançou a OPA com o preço de R$ 28 por ação, acentuando a competição.

Ontem, a Iberdrola apresentou à Comissão Europeia uma carta de reclamação formal com relação ao comportamento da Enel. No documento, a Iberdrola disse que a italiana, tomando vantagem de sua posição como estatal, não está respeitando as regras para um processo competitivo de ofertas por companhias privadas. “Desde o início, a Enel está tentando influenciar o conselho de administração da companhia e o regulador brasileiro assim como intimidar os competidores com um injusto comunicado de imprensa”, disse a espanhola.

A Iberdrola disse ter notado que a italiana “não está operando de acordo com os critérios de mercado e está adotando decisões com a ausência de qualquer tipo de lógica econômica”. O documento, de sete páginas, foi enviado aos chefes de gabinetes de competitividade e ação climática e energia do órgão europeu. Segundo o grupo espanhol, as duas companhias competem diretamente em vários mercados europeus e internacionais, mas esta competição não estaria se dando no nível adequado porque a Enel estaria tomando vantagem de sua condição estatal e de sua posição quase monopolista no mercado doméstico italiano.