18/04/2018

Enel e Neoenergia travam disputa pelo controle da Eletropaulo

Fonte: Valor Econômico

A disputa pelo controle da Eletropaulo se estreitou entre a italiana Enel e a espanhola Iberdrola, repetindo o cenário de competição acirrada visto no mercado de distribuição da Espanha. Quem levar o controle da distribuidora paulista vai se consolidar como maior companhia do segmento no Brasil, deixando para trás a gigante CPFL Energia, hoje controlada pela chinesa State Grid, e também a brasileira Energisa, que chegou a lançar uma oferta pela Eletropaulo.

A Enel saiu na frente na disputa quando fez uma proposta para ancorar uma emissão primária de ações da Eletropaulo, a um preço na faixa de R$ 19 por ação. A Energisa entrou na briga depois, em 5 de abril, quando lançou uma oferta pública de aquisição de ações (OPA) voluntária de R$ 19,38 por ação. A companhia controlada pela família Botelho, porém, foi ultrapassada na segunda-feira à noite pela Neoenergia. Controlada da Iberdrola, a empresa propôs ancorar a emissão primária ao preço de R$ 25,51 por ação. A companhia se comprometeu a subscrever até R$ 1,5 bilhão na oferta primária.

O jogo teve novo lance ontem, quando a Enel lançou uma OPA concorrente, ao preço de R$ 28 por ação e ainda a intenção de aportar mais R$ 1 bilhão na companhia após adquirir seu controle. No caso de ter sucesso na operação. Se a Neoenergia quiser cobrir a oferta da concorrente italiana, precisará oferecer um preço no mínimo 5% superior. Ou seja, de R$ 29,40 por ação.

Uma vitória nessa disputa consolidaria a controlada da Iberdrola como líder no setor de distribuição no Brasil. Hoje, a companhia tem 13,4 milhões de clientes por meio das concessionárias Elektro (que atua no interior de São Paulo e Mato Grosso do Sul), Celpe (Pernambuco), Cosern (RN) e Coelba (BA). Com os 7,14 milhões de consumidores da Eletropaulo – que tem a maior área de concessão de distribuição de energia da América Latina -, a companhia iria para um total de 20,5 milhões de clientes.

A Enel segue de perto, com 9,8 milhões de clientes, um pouco acima da CPFL Energia, que tem 9,4 milhões de consumidores, e por muito tempo se orgulhou de ser a maior companhia integrada privada de energia do país. Com uma aquisição da Eletropaulo, a italiana se tornaria a maior, com 17 milhões de unidades consumidoras.

O número de unidades consumidoras é relevante, mas o indicador preferido do mercado para avaliar as distribuidoras de energia é a base líquida de ativos regulatórios (RAB, na sigla em inglês), uma vez que a remuneração das empresas, via tarifa, está atrelada a esse número.

A Neoenergia também já é líder no Brasil nesse quesito, com uma base líquida de ativos de R$ 14,9 bilhões, ante R$ 11,4 bilhões da segunda colocada, a CPFL. A Enel, que opera por meio das concessionárias em Goiás, interior do Rio de Janeiro e Ceará, tem uma base líquida de ativos de R$ 10,1 bilhões. Qualquer uma que leve a Eletropaulo, que tem RAB de R$ 7,1 bilhões, vai se isolar na liderança do setor no país.

A competição não é novidade para a italiana e a espanhola. Em âmbito global, a Iberdrola iniciou no ano passado um movimento de entrada mais agressiva no mercado de eletricidade italiano. A empresa, que já atuava na venda de energia no atacado na Itália desde 2006, começou em 2017 as atividades de comercialização de energia e gás natural no mercado livre para consumidores residenciais e comerciais daquele país. Na Espanha, a disputa entre as duas gigantes é mais agressiva. Cada uma dos dois grupos possui em torno de 40% do mercado de distribuição espanhol. A posição da Enel na Espanha começou em 2009, quando a empresa adquiriu o controle da antiga Endesa.

Ontem, as ações da Eletropaulo subiram 24,36%, para R$ 27,36, refletindo a expectativa da disputa acirrada de ofertas. Seu valor de mercado chegou a R$ 4,5 bilhões, o maior desde 2012.

Quem pegou carona foi a Light, que subiu 5,62%, para R$ 15,60. A distribuidora foi colocada à venda pela Cemig no ano passado, mas sem sucesso, até então. A expectativa no mercado é que, em meio à disputa pela liderança do segmento de distribuição no país, a companhia seja uma “segunda alternativa” para o investidor que perder a briga pela Eletropaulo. A Enel e a Equatorial já fizeram ofertas pela distribuidora, mas não foram consideradas “atrativas” pela Cemig, que ainda tenta negociar uma melhora nos termos.

A Eletrobras também pode sair ganhando com esse cenário. A Energisa reiterou a oferta de R$ 19,38 por ação, se colocando praticamente fora da disputa. Com isso, poderá voltar seu olhar para as distribuidoras da estatal, que devem ser privatizadas até julho.