17/04/2018

Neoenergia faz oferta pela Eletropaulo

Fonte: Valor Econômico

A espanhola Neoenergia, controlada pela Iberdrola, conseguiu uma vantagem significativa na acirrada disputa pelo controle da Eletropaulo, ao fechar um acordo para ancorar uma oferta primária de ações de no mínimo R$ 1,5 bilhão preparada pela distribuidora paulista. O preço acertado por ação, de R$ 25,51, representa prêmio de 16% em relação ao fechamento de ontem, de R$ 22, e levaria o valor total da companhia no mercado a R$ 5,7 bilhões.

Com o acordo, a Neoenergia deixou para trás as concorrentes Enel e Energisa, que já chegaram a colocar propostas na mesa, mas em valores inferiores. A italiana Enel propôs ancorar a oferta primária pagando cerca de R$ 19 por ação da companhia. Já a Energisa lançou, no início do mês, uma oferta pública de aquisição de ações (OPA) pela distribuidora, por R$ 19,38.

Um fato relevante com essas informações,, conforme apurou o Valor, deve ser divulgado hoje ao mercado pela Eletropaulo.

Além do preço mais atrativo, as condições impostas pela Neoenergia também foram bem-recebidas pela Eletropaulo, segundo fontes com conhecimento da situação. Diferentemente da proposta da Energisa, que tinha limitações relacionadas ao endividamento da companhia, por exemplo, a Neoenergia não impôs tais limitações.

A Eletropaulo vai utilizar os recursos para fortalecer sua estrutura de capital, melhorar o perfil de endividamento, além de investir em melhorias operacionais, que já constam em seu plano de investimentos e reestruturação que está sendo implementado. No cronograma previsto pela distribuidora, a precificação da oferta deve acontecer até 27 de abril.

Ao ancorar a OPA, a Neoenergia vai se comprometer a levar 100% das ações que serão emitidas, caso o procedimento de coleta de informações de investimento (bookbuilding) não chegue ao valor previsto. Se ficar no preço, a espanhola poderá levar até 80% das ações colocadas no mercado, depois que os atuais acionistas exercerem – ou não – o direito de preferência de subscrição na oferta. Se a demanda puxar os preços para cima, a Eletropaulo poderá levantar mais do que o R$ 1,5 bilhão previsto.

A intenção da Neoenergia, segundo o Valor apurou, é de superar o percentual de 30% das ações da Eletropaulo, o que a obrigaria a lançar uma oferta pública de aquisição de ações (OPA) ao mesmo preço pago na emissão primária, de acordo com as regras do estatuto da distribuidora de energia.

Se a Neoenergia comprar as 58,8 milhões de ações ordinárias (ON) que serão emitidas na operação, ao preço de R$ 25,1, atingirá 26% do capital da companhia, já considerando a diluição dos atuais sócios.

Outra forma de superar os 30% seria adquirindo as ações da AES. Hoje, a companhia americana, que compartilhava controle da distribuidora com o BNDES até a sua migração para o Novo Mercado da B3, em novembro do ano passado, tem 16,83% das ações da empresa. O banco tem outros 18,73% do capital. A AES pretende sair da distribuidora por meio da OPA.

Com a emissão de R$ 1,5 bilhão em novas ações, a participação da AES vai para 12,4%, ou R$ 718,8 milhões ao preço oferecido pela Neoenergia, e o BNDES chega a 13,8%, ou R$ 799,7 milhões.

Apenas neste ano, as ações da Eletropaulo já acumulam valorização de 34,5%, refletindo, além da expectativa de uma “guerra de ofertas” para aquisição da companhia, a conclusão de um acordo que encerrou uma disputa judicial com a Eletrobras que já se arrastava há 30 anos. A distribuidora concordou em pagar R$ 1,5 bilhão no acordo, montante inferior ao previsto pela estatal em seu balanço, próximo de R$ 3 bilhões, o que foi bem recebido por investidores por “destravar valor” da companhia.

Mas o grande evento que impulsionou a alta das ações da concessionária foi a oferta da Energisa. Desde que a OPA pela companhia foi lançada, em 5 de abril, as ações já valorizaram 23,2%.

Investidores esperam que OPAs concorrentes sejam lançadas agora, mas restam poucos na disputa, em razão do valor elevado que precisaria ser desembolsado. Pelas regras do mercado de capitais, as novas ofertas precisariam ter um valor por ação no mínimo 5% superior que a operação já lançada. No caso do preço da Neoenergia, concorrentes precisariam pagar R$ 26,78 por ação, levando o valor de mercado da companhia, depois da oferta primária, a R$ 6 bilhões.

Ao preço de fechamento das ações de hoje, o valor de mercado da Eletropaulo é de R$ 3,7 bilhões.

Em seu favor na disputa, a Neoenergia tem os potenciais ganhos com sinergias com a Elektro, concessionária que atende 223 municípios no interior de São Paulo e cinco do Mato Grosso do Sul, totalizando 2,5 milhões de clientes. Além da distribuidora, que foi incorporada em uma reorganização das atividades da Iberdrola no Brasil, a companhia tem as concessionárias Cosern (Rio Grande do Norte), Coelba (Bahia) e Celpe (Pernambuco).

A Eletropaulo, que tem a maior área de concessão de distribuição da América Latina, consolidaria a Neoenergia como maior distribuidora do Brasil em termos de número de clientes e volume de energia distribuída.