26/04/2018

Trator movido a biometano deve chegar ao mercado em três anos

Fonte: Revista Globo Rural

O foco do lançamento é garantir sustentabilidade econômica ao produtor aliada à sustentabilidade ambiental

Um trator que se move alimentado por biogás produzido a partir de dejetos gerados na própria fazenda a um custo 30% inferior ao do diesel, com a mesma performance e com redução de 80% nas emissões. Esse é o conceito do trator movido a biometano da multinacional New Holland que foi apresentado pela primeira vez na América Latina nesta terça-feira (dia 24/4). O evento ocorreu na Chácara Marujo, em Castro (PR), onde um trator da marca com motor adaptado para rodar com biometano já está em testes há um ano.

A região conhecida como Campos foi escolhida para a primeira apresentação à imprensa do trator conceito, baseado nos protótipos do T6, por ser altamente produtiva e ter uma cadeia agrícola complexa e muito tecnificada, segundo Rafael Mioto, o vice-presidente da marca na América Latina. O foco do lançamento, segundo ele, é garantir sustentabilidade econômica ao produtor aliada à sustentabilidade ambiental.

Desde 2006, quando lançou um equipamento totalmente compatível com o biodiesel, a New Holland, líder em projetos de energia limpa, vem fazendo testes com outros combustíveis alternativos como propano e hidrogênio que não vingaram, mas seus executivos afirmam que o modelo movido a biometano, desenvolvido desde 2013, já se mostrou eficiente, viável e veio para ficar. “Sustentabilidade e inovação são os pilares da marca há mais de uma década. Nosso trator a biometano estará pronto para ser comercializado nos próximos três anos”, garante Nilson Righi, gerente de marketing.

Os executivos da New Holland acreditam que o biometano vai se tornar uma alternativa energética extremamente viável no campo em pouco tempo. Segundo o vice-presidente Rafael, já há discussões para fomento dessa tecnologia nos órgãos do governo e a iniciativa privada pode suprir as necessidades de investimento.

O trator que roda na Chácara Marujo é um dos cinco adaptados para biometano da New Holand em testes no mundo. Já o novo trator conceito, apresentado antes apenas nos Estados Unidos e Alemanha e que será mostrado na Agrishow, a partir do dia 30 de abril, tem um motor de combustão especialmente desenvolvido para rodar com biometano. A tecnologia foi criada pela FTP Industrial, uma das marcas que pertence à CNH Industrial, como a New Holland e a Case IH. Os seis cilindros desenvolvem 180 HP de potência e têm o mesmo torque e desempenho do modelo a diesel. A redução de emissões é de 80% na comparação com o modelo tradicional. A durabilidade do motor e os intervalos de manutenção também são os mesmos do modelo a diesel. Já o ruído do motor é 50% menor.

Os tanques de gás começam na parte frontal do veículo e passam por toda a parte inferior, totalmente integrados ao design do trator, inspirado nos carros de luxo da Fiat como Ferrari, Alfa Romeu e Maseratti. A autonomia é para um dia inteiro de trabalho — o modelo em testes atualmente na chácara tem autonomia para 5 a 6 horas de trabalho.

Se o motor novo impressiona, o desenho não fica atrás. O escocês David Wilkie, diretor de design da CNH Industrial, veio de Torino, na Itália, para explicar o processo de criação do novo trator. Ele diz que lançou uma competição entre os centros de design da empresa na Itália, França e Estados Unidos para criar algo novo, mandou uma equipe buscar inspiração na Feira do Móvel em Milão e usou o estúdio de realidade virtual da Fiat, onde são desenhados os carros.

O resultado é um veículo de linhas fluidas, já que o trator não precisa ser aerodinâmico devido à baixa velocidade em que trabalha, com uma cabine de visibilidade de 360 graus (o teto é de vidro fotossensível à luz), a grade tem linhas em relevo que imitam as curvas de uma lavoura e o logo da New Holland aparece em vários locais, inclusive nos faróis olho de gato.

O assento do operador também chama a atenção: é estilizado com o logo da marca em relevo sem perder a ergonomia. Nas laterais, aparecem três guelras, mesmo design de Ferraris do passado. No centro do volante vazado, há uma tela estática com informações sobre a operação. Outras três telas ficam no alto, a direita do operador, para garantir toda a conectividade necessária ao trabalho. À direita, abaixo, há um console para celular. A cor segue o padrão azul da marca para tratores, mas foi especialmente desenvolvida para esse trator.

Várias tecnologias do trator conceito devem aparecer em outras máquinas da marca nos próximos anos.

O biometano foi escolhido como combustível porque é um gás que se origina da decomposição natural da matéria orgânica. A tecnologia acelera o processo de decomposição e refina o gás gerado para uso em motores. “Gerar sua própria energia é o pulo do gato para o produtor. O biometano é o caminho do futuro e já está na nossa porta”, afirma Alexandre Blasi, diretor comercial da marca.

Gabriel Kropsch, vice-presidente da Abiogás Brasil, estima que o país tem potencial para gerar 78 milhões de metros cúbicos de biometano por dia, sendo 56 milhões do setor sucroenergético, 15 milhões oriundo de alimentos e mais 7 milhões de saneamento e esgoto. “Se fosse aproveitado todo o biogás produzido hoje, daria para suprir 24% da necessidade de energia do país.” Segundo ele, o biometano é a única fonte de energia primária com pegada de carbono negativa, ou seja, evita o passivo ambiental dos resíduos e reduz o consumo de energia fóssil. “Quanto mais se usa o biometano, mais limpo fica o meio ambiente.”

Segundo a Abiogás, com as novas plantas que estão sendo criadas em várias partes do país, devem ser produzidos no próximo ano 500 mil m³ de biometano por dia. Em 2030, o volume projetado no país é de 32 milhões de m³ por dia.

Na Chácara Marujo, propriedade de Jan Haasjes, holandês de 66 anos radicado no Brasil há 45 anos, funciona assim: os dejetos produzidos na granja de 10 mil suínos e mais alimentos descartados de supermercados e restaurantes são colocados em biodigestores que produzem o gás metano. Os resíduos resultantes viram biofertilizante que o produtor usa nos 800 hectares de lavoura de grãos que mantém no município. Parte do metano, então, é filtrada para produzir o biometano usado no trator que está em testes.

“Dou um tratamento adequado para os efluentes da granja, gero energia para a propriedade e biometano para as máquinas agrícolas e ainda tenho um biofertilizante para a lavoura totalmente sem cheiro”, diz o produtor. Jan conta que já investiu R$ 3,5 milhões no sistema em 15 anos e que a tecnologia realmente vale a pena. Há dois anos, ele se encantou com o estágio de desenvolvimento do biogás na Alemanha e trouxe para sua chácara um biodigestor piloto daquele país que está fazendo a diferença em sua produção. Pelas suas contas, o custo de produção do m³ de biometano varia de R$ 0,70 a R$ 0,80.

O produtor reclama, no entanto, que faltam máquinas e caminhões compatíveis com o biometano para consumir todo o gás que produz e que, por conta da legislação, ainda não pode vender o excedente.

Ao ser apresentado ao trator conceito, Jan ficou entusiasmado com a beleza do veículo e com a promessa de mais torque e autonomia do modelo, na comparação com o veículo que está testando. Mas, não gostou do teto de vidro: “Isso é coisa de europeu e não funciona aqui”, brincou, acrescentando que faltou ouvir o ronco do motor.