10/05/2018

Enel e Neoenergia querem disputa em leilão

Fonte: Valor Econômico

Enel e Neoenergia querem que a disputa pelo controle da Eletropaulo possa ir, lance a lance, para o leilão de compra das ações, marcado para 4 de junho. As companhias estão em conversas com a Comissão de Valores Mobiliário (CVM) para tentar garantir essa opção mesmo que não apareça mais nenhum interessado na distribuidora de energia paulista – possibilidade hoje inexistente.

Ambas querem assegurar a chance, até o último minuto, de cobrir a oferta da concorrente. A proposta de maior valor neste momento é da Enel, de R$ 32,20 por ação, o que equivale a R$ 5,4 bilhões por 100% do capital.

A disputa acirrada já mais do que dobrou o valor da companhia na bolsa. A Eletropaulo fechou 2017 valendo R$ 2,67 bilhões na B3. Agora, as cotações da última semana já contemplam a aposta de aumento de preço: a empresa fechou o pregão de ontem avaliada em R$ 5,6 bilhões – o que seria algo em torno de R$ 34 por ação.

Para que a briga entre Enel e Neoenergia vá até o momento final do leilão, a autarquia teria de mudar parte da decisão que já tomou a respeito da operação.

A CVM já definiu, após receber consulta das empresas, que Enel e Neoenergia somente poderão brigar por preço durante o leilão se um novo interessado aparecer no momento da compra, no dia 4 – o que a legislação chama de “interferente”. Nesse cenário, ambas poderiam elevar seus lances.

Mas, se ninguém novo surgir, valerá o maior preço que elas tiverem lançado até as 19 horas do dia 24 – prazo final para ajustes de preços entre elas. Ou seja, a decisão se dará quase por um sistema de “envelopes fechados”.

Para atuar de surpresa no leilão, um interessado apenas precisa avisar à Eletropaulo e à CVM que talvez o faça, também até dia 24 – mas sem obrigação de aparecer de fato. Essa comunicação precisa ser feita até as 15 horas.

Contudo, Enel e Neoenergia querem mudar as regras dessa dinâmica. O conselho da Eletropaulo, conforme o Valor apurou, também defende a estrutura competitiva até o último instante, mesmo sem novos proponentes.

As conversas com a CVM apontam também um descontentamento em relação à possibilidade de interferência no leilão, por um novo interessado.

As companhias entendem que, da forma como a autarquia está aplicando as regras, um novo interessado está em situação de vantagem já que não precisa expor sua estratégia de preço até o leilão – enquanto elas estão obrigadas a colocar sua proposta até dia 24, com risco de ser o valor final.

A CVM marcou o leilão “imutavelmente” para dia 4 de junho. Contudo, as regras de ofertas de aquisição de ações (OPA) estabelecem que determinas modificações de condição na operação podem levar ao adiamento do leilão.

Neste momento, as ofertas tanto de Enel como de Neoenergia são por até 100% das ações da Eletropaulo e têm como condicionante a aquisição do controle – 50% do capital mais uma ação.

A distribuidora paulista não tem dono definido, mas as participações de BNDES, União Federal e AES somam quase 45%, descontada a posição em tesouraria. A concentração do capital torna possível a retirada da condicionante sem afetar o resultado final – é fácil obter adesão dos participantes de mercado diante do prêmio no preço e, com isso, o controle.

A modificação da estrutura das ofertas teria reflexo em toda a dinâmica do leilão. Como ambas as ofertas são pelo controle, um eventual novo interessado também é obrigado a adquirir até 100% do capital. Caso ou Enel ou Neoenergia mudem essa condição, é bastante provável que haja reflexo sobre as regras para interferência e até alteração no prazo do leilão.

Conforme o Valor apurou, a interpretação de todas as partes envolvidas na disputa é que a Neoenergia tem atuado de forma a adiar a definição. Controlada pela espanhola Iberdrola, a empresa espera que com o tempo ganharão força na Europa as queixas contra o que chama de atuação irracional da rival italiana.