29/05/2018

Modelos elétricos de aviões devem chegar em dez anos

Fonte: Valor Econômico

Não é preciso ser adivinho para saber o que o consultor de marketing Gianfranco Beting, de 54 anos, conhecido como Panda, faz, pensa – e quem sabe, até sonha – neste exato instante. Com certeza, ele está entrando ou saindo de aviões, enquanto cria uma nova marca para uma empresa aérea. Panda é maníaco por um par de asas. Diz a lenda que as três primeiras palavras que balbuciou foram ” Varig, Varig, Varig!”, trecho de um jingle da antiga companhia brasileira de aviação. Note-se que a testemunha dessa história foi o pai de Gianfranco, o jornalista Joelmir Beting, falecido em 2012.

Não por acaso, Panda foi um dos fundadores da Azul, onde respondeu pelo marketing da companhia. Desde 2016, contudo, ele se mudou para Miami, na Flórida, e abriu uma consultoria na área de branding, a Beting Consulting.

As companhias com as quais trabalha estão espalhadas por seis países. A seguir, ele conta como é empreender fora do Brasil e diz quais são as oportunidades do setor da aviação.

PEGN: Você foi um dos cofundadores da Azul. Como entrou na empresa?

Gianfranco Beting: Um amigo publicitário me disse que uns gringos estavam vindo ao Brasil para fundar uma companhia aérea. Ele não se lembrava do nome das pessoas, mas me perguntou: “Já que você entende tudo de aviação, quer conhecer os caras?” Eu topei. Numa quinta-feira, em 2008, toca a campainha da minha casa. Abro a porta e quem estava lá? David Neeleman [o principal idealizador da Azul]. Quase cai para trás.

PEGN: Como foi o encontro?

Beting: Ele entrou e foi dizendo: “Você tem 45 minutos para vender seu peixe”. Cinco horas depois, concluiu: “Olha, Panda, eu acredito que a gente não pode ensinar paixão para ninguém. E a sua relação com aviões não é de paixão. Ela é doentia. Quer ser meu diretor de marketing?”. Topei na hora.

PEGN: Como ficou tão fascinado pela aviação?

Beting: Veio do berço. Meu pai dizia que, um dia, passando pela Avenida Rubem Berta, ao lado do aeroporto, em São Paulo, no fusquinha verde que tínhamos [os Beting, em geral, são palmeirenses], eu disse as minhas primeiras três palavras: “Varig, Varig, Varig!” [refrão de um antigo jingle da companhia aérea]. E sempre fui o mais nerd dos nerds.

PEGN: Você também foi o primeiro funcionário da Azul.

Beting: Sim. Desenhei os uniformes, o logotipo, a pintura dos aviões e criei a formulinha secreta do padrão de prestação de serviço da empresa.

PEGN: Existe uma fórmula secreta para isso?

Beting: Não é secreta, mas tem uma fórmula. É a seguinte: você olha para o cliente e pensa na palavrinha “OPA!”. Ela quer dizer “Observe, Perceba e Atenda”. Ou seja, observe quem é a pessoa, perceba quais são as suas necessidades e a atenda da melhor maneira possível. Agindo dessa maneira, o relacionamento com os passageiros fica mais leve. Esse é um estilo mais brasileiro.

PEGN: Já havia pensado em morar fora do Brasil?

Beting: Essa sempre foi uma possibilidade. O problema é que, quando estava resolvido que iríamos para Miami, o David me falou: “Quer sair do Brasil, gosta de bacalhau? Então vai morar em Lisboa. Estou comprando a TAP [a principal companhia aérea portuguesa].” Mas minha mulher não quis saber de mudar de plano. Agora, moro na Flórida e vou todo mês a Lisboa, prestar serviços para a TAP.

PEGN: Quais são as novidades do setor da aviação? Para onde estamos caminhando?

Beting: Do ponto de vista tecnológico, os avanços continuam acontecendo. Os modelos elétricos já estão nas pranchetas e devem chegar ao mercado em dez ou 15 anos. Os novos supersônicos vão voar mais rápido que o velho Concorde. E o mais importante: as gerações atuais de aviões são muito mais econômicas do que as anteriores. Elas consomem menos combustível. De uma maneira geral, entre 15% e 25% em comparação aos aviões que substituem. Se a gente lembrar que a margem histórica do setor é negativa em 0,5%, dá para ter ideia do que isso representa. É um ganho fenomenal.

PEGN: Que tipo de mudança?

Beting: Várias empresas já estão se especializando em fazer voos de longa distância, cobrando até um quarto do preço atual das tarifas. Nos EUA, algumas empresas já cobram cerca de US$ 100 por uma passagem para a Europa. E não é mágica. É um projeto rentável, com começo, meio e fim. O espaço interno dos aviões é apertado? É. Se quiser comer um sanduíche a bordo tem de pagar? Tem. Mas o preço é incrível. Isso pode mexer com a cabeça das pessoas. Voar, graças a Deus, vai deixar de ser uma coisa de elite, para ser um modal de transportes de massa. Essa é a vocação e a redenção dessa indústria. Esse é o futuro da aviação.

PEGN: No Brasil, a situação é diferente?

Beting: Sim. Aqui, ninguém consegue ser uma empresa de baixo custo. O David Neeleman logo entendeu isso. Temos uma carga tributária imensa e o combustível está entre os mais caros do mundo. Se a gente pensar que, na média mundial, o combustível representa quase 40% do custo de uma empresa aérea, dá para perceber a dimensão do problema.

PEGN: Como foi começar a empreender, depois de oito anos atuando na Azul?

Beting: Quando resolvi sair da Azul, continuei prestando serviços para eles, mas isso não ocupava 100% do meu tempo. Assim, comecei a buscar outros clientes. Hoje, trabalho com empresas na Bolívia, Uruguai, Canadá, Estados Unidos, além de Brasil e Portugal. O preço a pagar por isso é que estou em constante movimento.

PEGN: Qual a diferença entre abrir um negócio no Brasil e nos Estados Unidos?

Beting: Para o governo americano, o empresário não é um inimigo. É um gerador de empregos, alguém que vai pagar impostos. Eu demorei 14 minutos para abrir uma empresa. Demorei mais tempo para escolher o nome que daria à companhia do que para formalizá-la. O ambiente todo também é muito diferente do brasileiro.

PEGN: Em que aspecto?

Beting: Em todos. As reuniões, por exemplo, começam no horário e terminam em 30 minutos. Como tudo é mais simples e eficiente, sobra tempo para você ganhar dinheiro, aumentar a margem, contratar gente ou crescer pessoalmente. Tudo é resolvido entre 9 e 17 horas. No Brasil, a ética de trabalho para cargos de liderança exige que você trabalhe das 7 às 21 horas. Caso contrário, é vagabundo. Nos EUA, marcar uma reunião para depois das 16 horas é sinal de ineficiência.

PEGN: Você também diz que gosta de desenhar marcas?

Beting: Sim, e não mando fazer. Eu mesmo faço. Fiz todos os desenhos da Azul. Só para a pintura dos aviões, foram 88 versões até que o David aprovasse o layout final. Às vezes, o cliente me pede para fazer uma nova “marquinha”. Na semana seguinte, eu apareço com a marca, a proposta de um website, uma nova estratégia para internet, já digo que não podem atender o telefone de determinada maneira. Sou um maníaco por marcas.

PEGN: Qual o seu hobby?

Beting: É voar. Já passei por 105 países e voei em 169 companhias. Na verdade, já dei seis voltas ao mundo só para experimentar empresas aéreas.