07/05/2018

O novo ciclo do etanol

Fonte: O Globo

Com aporte de R$ 72 bi em produção, combustível deve retomar competitividade nos postos

Setor se prepara para um novo ciclo de expansão, com investimentos previstos de R$ 72 bilhões até 2030. Com a mudança na política de reajuste da gasolina, o preço do etanol deve ficar mais vantajoso para o consumidor.

Segundo maior produtor do mundo, o Brasil começa a se preparar para um novo ciclo de investimentos na produção de etanol nos próximos anos. Calcula-se que serão investidos mais de R$ 72 bilhões até 2030. Também vão contribuir para esse ciclo de injeção de dinheiro no etanol, o crescimento da frota de carros flex e a nova política de preços da Petrobras, que alinhou os reajustes da gasolina com o mercado internacional. A aposta é que agora o etanol ganhe um impulso mais consistente do que teve no passado.

Nas usinas, a produção de álcool já começou a crescer na atual safra. Até o fim deste ano, pelo menos 60% da cana de açúcar moída serão transformados em etanol, enquanto com os 40% restantes serão produzidos açúcar. Ano passado, a relação foi inversa, de 55% para açúcar e 45% para etanol. Por enquanto, o motivo é conjuntural. O preço do açúcar está no menor nível histórico no mercado internacional — U$ 0,11 centavos de dólar por libra (cotação usada nos contratos futuros de Nova York), mas já chegou a U$ 0,27 por libra. O motivo é um excedente de produção de açúcar no mundo, por conta de países como Índia, Tailândia e Paquistão.

Para o consumidor, o efeito pode ser uma redução do preço na bomba. Alguns analistas acreditam inclusive que — com a alta recente do petróleo e a maior produção de álcool — com a entrada da safra de cana, em maio, o preço do etanol pode voltar a ser competitivo até mesmo em estados onde isso não ocorre há muitos anos, como o Rio de Janeiro.

— Com o crescimento de frota flex, a nova política de preços da Petrobras para a gasolina e o Renovabio, um programa de Estado que estimula o uso de biocombustíveis e traz previsibilidade e transparência ao investidor, já há a expectativa de um novo ciclo de investimentos no etanol — diz Antonio de Padua Rodrigues, diretor da União da Indústria de Cana de Açúcar (Unica), entidade que representa os produtores.

Esse novo ciclo de investimentos deve ganhar fôlego a partir de 2020, quando o Renovabio, programa do governo federal que incentiva o uso de biocombustíveis, estiver totalmente implementado.

RENOVABIO DEVE PUXAR INVESTIMENTOS O cálculo para se chegar aos R$ 72 bilhões leva em conta os investimentos que serão feitos no campo e na indústria em renovação e ampliação de canaviais, melhoria da produtividade da cana, reativação de usinas fechadas e abertura de novas unidades de produção, com base em estimativas da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), ligada ao Ministério de Minas e Energia.

Para cada tonelada nova de cana produzida, calcula-se aporte de US$ 130. Segundo a EPE, a produção de cana no país saltará das atuais 635 milhões de toneladas para ao menos 800 milhões de toneladas até 2030. O número de usinas operando subirá de 360 para 390, enquanto a oferta de etanol passará dos atuais 31 bilhões de litros para 49 bilhões.

A principal aposta para mais investimentos em etanol é o Renovabio. O programa, que teve lobby dos empresários do setor, estimula o uso de biocombustíveis e a redução da emissão de carbono, com metas definidas. Com o programa, o Brasil vai cumprir os compromissos do Acordo de Paris, de redução das emissões de gases de efeito estufa. Sancionado pelo presidente Michel Temer em março, está 60% concluído. Mas há obstáculos até 2020.

— Ainda é preciso definir as metas de redução de emissões de gases poluentes e o papel dos produtores de biocombustíveis nesse processo até 2030 — explica Padua, da Unica.

O programa também é alvo de críticas, como o fato de chegar com pelo menos 20 anos de atraso ao país. Enquanto o mundo está avançando em veículos híbridos, elétricos e na Europa já está previsto o fim da produção de motores a combustão, o Brasil ainda está longe dessa realidade.

— Acredito que o Renovabio é importante, mas chega com 20 anos de atraso. É um programa para os próximos 20 anos. Depois, as novas tecnologias de veículos híbridos e elétricos devem ganhar força no Brasil — avalia José Carlos de Lima, especialista em Estrutura de Mercado e Planejamento Estratégico e sócio da consultoria Markestrat.

Para o agrônomo e consultor da MB Agro, Alexandre Figliolino, a nova política de preços da Petrobras para a gasolina trouxe transparência e deu competitividade ao etanol. Enquanto o barril de petróleo estiver acima de US$ 50 (na última sexta-feira, estava acima de US$ 70), o etanol tem boas condições de competitividade com a gasolina, diz ele:

— A política de congelamento de preços da gasolina no governo Dilma arrebentou com o etanol.

Pelas projeções da EPE, cada vez mais os brasileiros comprarão os chamados carros flex, estimulando o consumo de álcool hidratado. A venda de veículos leves deve chegar a 5,2 milhões de unidades em 2030, com a recuperação da economia, a melhora do crédito e a retomada do emprego e da renda. Ano passado, as montadoras venderam pouco mais de 2 milhões de veículos. A projeção aponta que 88% da frota de veículos leves que circulando no país em 2030 será do tipo flex.

A trading SCA prevê que o consumo de álcool hidratado pode crescer 20% em maio. Com isso, o combustível poderá se tornar vantajoso até em estados como Bahia e Rio de Janeiro, onde a incidência de tributos é maior. O hidratado costuma ser mais atrativo ao consumidor em regiões com maior produção e menor carga de impostos, como São Paulo, Mato Grosso e Minas Gerais.

— Este ano, a safra será alcooleira já que o preço do etanol está remunerando melhor o produtor — diz Jacyr Costa Filho, o diretor da Região Brasil do Grupo Tereos, cujas sete usinas vão moer cerca de 20 milhões de toneladas este ano, com produção de álcool maior que a de açúcar.

QUEDA DE PREÇO AINDA NÃO CHEGOU AO CONSUMIDOR Segundo a Unica, a venda de etanol desde o início da safra já subiu quase 30%. Para o consumidor essa maior oferta de álcool ainda não resultou em preço mais baixo, entrave à expansão da demanda. Enquanto o preço do litro caiu R$ 0,40 ao produtor na região Centro/Sul, na bomba dos postos, o recuo foi de só R$ 0,08. Com a entrada da nova safra, o preço ao consumidor deve cair mais rápido:

— Pode estar ocorrendo uma recomposição de margens das distribuidoras ou postos. Com a chegada do etanol da nova safra e o aumento da demanda por esse combustível, a velocidade de repasse ao consumidor vai acelerar — diz Padua.

Desde a década de 70, o etanol passa por altos e baixos no país. Primeiro foi o Proálcool, que visava substituir a gasolina pelo álcool, em época de petróleo caro. Mas o petróleo ficou barato e o preço do açúcar subiu, minguando a produção de álcool. No início do governo Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003, houve novo estímulo ao etanol. Mas, com a descoberta do pré-sal, o programa não deslanchou. O prejuízo foi grande: as usinas tomaram empréstimos para produzir e ficaram com um papagaio de R$ 100 bilhões, que até hoje não foi pago, e 30 fecharam. No governo Dilma Rousseff, a contenção dos preços da gasolina prejudicou o combustível.