05/06/2018

Com inscrição recorde, leilão da ANP pode gerar R$ 3,2 bi

Fonte: Valor Econômico

A 4ª Rodada do pré-sal poderá garantir uma arrecadação de R$ 3,2 bilhões à União, na próxima quinta-feira. Ao todo, 16 empresas disputarão os quatro blocos exploratórios, localizados nas bacias de Santos e Campos, número recorde de inscrições para uma licitação sob o regime de partilha.

De acordo com especialistas consultados pelo Valor, a expectativa é que, embora tenha levantado incertezas sobre a prática de preços de mercado para os combustíveis no país e culminado na renúncia do presidente da Petrobras, Pedro Parente, os desdobramentos da greve dos caminhoneiros deverão gerar pouco ou quase nenhum impacto negativo sobre a atratividade do leilão.

“A discussão de crise dos combustíveis não fala com a exploração e produção de petróleo. São mercados distintos. Os ativos que o Brasil tem são muito atrativos. A avaliação de oportunidade versus risco Brasil, em princípio, não mudou, na análise do IBP”, explica o secretário-executivo de Exploração e Produção do Instituto Brasileiro do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (IBP), Antonio Guimarães. “Esperamos, assim como foi para os outros leilões, que seja um leilão muito interessante”.

O sucesso dos leilões mais recentes anima investidores e o governo, que arrecadou R$ 18,1 bilhões com as rodadas realizadas desde 2017. Para o sócio de óleo e gás da KPMG, Anderson Dutra, a previsão é que haja competição acirrada pelos ativos esta semana. Segundo ele, a alta do dólar e do preço do barril tendem a pesar favoravelmente na decisão de investimentos das petroleiras no leilão.

“O Brent e o dólar em alta tendem a aumentar a capacidade das companhias de fazerem aportes para aquisições. Teremos nesta rodada um número recorde de inscritos para uma licitação de partilha. Tem tudo para dar certo o leilão”, opina Dutra.

O consultor João Carlos de Luca, da De Luca Energy Consulting, por sua vez, destaca a qualidade geológica dos ativos do pré-sal colocados em leilão e vê “boas chances” de que todas as quatro áreas sejam negociadas. Segundo ele, as petroleiras podem se sentir estimuladas a intensificar suas apostas nas rodadas deste ano, as últimas antes da troca de governo.

“Esperamos que o calendário de leilões seja respeitado, mas as empresas vão pensar em garantir o que tem disponível agora. As petroleiras já estão trabalhando com esse cenário [de incertezas políticas num ano eleitoral], não vão deixar passar a oportunidade”, diz.

A tradução do otimismo do setor em investimentos já começa a aparecer em estatísticas como a da GlobalData, que prevê a entrada de 27 novas plataformas flutuantes (FPSOs) no Brasil até 2025, muito à frente de Angola, segunda colocada (com 7 novas unidades). “O país vai se consolidar como o principal mercado offshore do mundo”, comemora o diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Décio Oddone. “Creio que haverá disputas [no leilão de quinta-feira] e que, pela primeira vez, vamos ter ofertas para todas as áreas”.

O geólogo e consultor John Forman, ex-diretor da ANP, explica que, ao participarem dos leilões do pré-sal, as petroleiras têm interesse no acesso a novas reservas de petróleo, e não necessariamente no mercado brasileiro de combustíveis. “São [ofertados no leilão] projetos de médio e longo prazo. O foco é exploração [de petróleo] e as áreas são ótimas”, afirma.

Na semana passada, o secretário de petróleo e gás do Ministério de Minas e Energia, João Vicente Vieira, havia ponderado que as petroleiras olham para o longo prazo e que o governo espera negociar todas as quatro áreas ofertadas. Ele reconhece, porém, que as mudanças propostas na política de preços da Petrobras, embora necessárias para desmobilizar a greve dos caminhoneiros, deram um “sinal ruim” que “não é o ideal” para os investidores – que podem interpretar a atuação do governo como interferência no setor de refino.

Dentre as 16 empresas inscritas para a 4ª Rodada, segundo Anderson Dutra, da KPMG, uma das curiosidades gira em torno da participação da Petronas, da Malásia. A companhia, ao lado da alemã DEA Deutsche Erdoel AG, busca na 4ª Rodada uma oportunidade de entrar no mercado brasileiro. Não é de hoje que as duas petroleiras se aproximam do Brasil.

A malaia, entre as maiores petroleiras do mundo, vem mapeando oportunidades de negócios desde os leilões do ano passado. Em 2013, a companhia chegou a fechar um acordo com a OGX para comprar 40% do campo de Tubarão Martelo (Bacia de Campos), mas desistiu depois que a antiga petroleira de Eike Batista entrou em recuperação judicial. Já a DEA, controlada pelo fundo de investimentos Letter One Energy, fechou em 2017 um acordo de opção de compra de 50% de Echidna e Kangaroo, projetos da Karoon no pós-sal de Santos, mas também não avançou na negociação.

Como grandes favoritas para a rodada, para além da Petrobras, destacam-se a ExxonMobil, principal protagonista dos últimos leilões, e a BP – que também intensificou sua presença no país nas últimas duas rodadas, com aquisições de ativos com potencial para o pré-sal.

Dutra também destaca que as chinesas CNOOC e CNODC ficaram de fora da 15ª Rodada de concessões, em março, e podem voltar com força. “Além delas, a Shell é uma empresa que sempre olha o pré-sal e as águas profundas com interesse e a ExxonMobil mostrou que veio para ficar no país”, avalia o consultor.

Questionada sobre o interesse em participar do leilão desta semana, a Shell lembra, em nota, que esteve habilitada a participar em todas as rodadas de licitação desde a abertura do mercado brasileiro, e destaca que “está continuamente avaliando oportunidades de investimentos que sejam compatíveis com seus objetivos de negócio”.

Como de praxe nessa indústria, em que o segredo pode levar a uma economia de bilhões de dólares, as empresas não comentam a participação ou não no leilão. A Petrobras já manifestou o direito de preferência pela operação de três dos quatro ativos oferecidos: Uirapuru, Três Marias e Dois Irmãos, totalizando pagamento de bônus de assinatura de R$ 945 milhões. O quarto ativo ofertado será Itaimbezinho.