26/06/2018

Déficit dobra custo da energia desde 2012

Além de travar o mercado à vista de energia, o déficit de geração das hidrelétricas (GSF) praticamente dobrou o valor da energia colocada no regime de cotas, criado pela então presidente Dilma Rousseff em 2012 a fim de baixar as tarifas.

Levantamento da Comerc Energia mostra que as cotas custaram aos consumidores cerca de R$ 22 bilhões entre 2013 e abril deste ano, e o GSF das cotas chegou a R$ 20 bilhões no mesmo período — impondo à tarifa quase o dobro do custo.

No ano passado, por exemplo, o GSF das cotas custou R$ 8,3 bilhões, enquanto as cotas em si tiveram custo de R$ 6,7 bilhões. Nas cotas, o risco hidrológico é repassado ao consumidor, enquanto em contratos regulares o GSF fica com os geradores. Na prática, isso quer dizer que, sem o modelo adotado em 2012, esse custo de R$ 8,3 bilhões ficaria não com o consumidor, mas com as geradoras.

Diferentemente dos geradores, que conseguem administrar o risco hidrológico por meio da compra e venda de energia, as distribuidoras têm uma gestão passiva, repassando o custo total aos consumidores.

“Qual o interesse da distribuidora em se proteger? Ela repassa tudo ao consumidor. Assim, a administração do risco fica nas mãos de alguém que não tenha interesse nem o direito a fazer gestão de proteção”, disse Cristopher Vlavianos, presidente da Comerc.

Foram enquadradas no regime de cotas as hidrelétricas cujas concessões estavam próximas de vencer em 2012. A ideia era antecipar a renovação, mas com uma nova tarifa, que cobrisse apenas custos de operação e manutenção dos ativos. Na época, o risco hidrológico não era o problema que se tornou de 2014 para cá, quando uma seca grave afetou o país e obrigou o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) a determinar que as usinas gerassem menos que suas garantias físicas para preservar os níveis dos reservatórios. No seu lugar, entraram térmicas mais caras, além das novas fontes renováveis como usinas eólicas e solares.

Na prática, a tarifa das cotas custou o dobro do que deveria aos consumidores por conta do GSF. Neste ano, o custo do GSF deve crescer ainda mais a partir de agora. A Comerc prevê que o déficit das hidrelétricas, hoje próximo de 30%, chegará a 40% entre agosto e setembro — vão produzir 40% abaixo da garantia física.

A consultoria GV Energy também projeta um GSF elevado para o segundo semestre, na faixa de 30% no período de julho a outubro deste ano. Segundo a empresa, o déficit pode ser zerado no início do período chuvoso, a partir de novembro. Como no período chuvoso normalmente os preços de energia caem, as hidrelétricas “sazonalizam” contratos para os meses mais secos, quando os preços ficam mais altos. Isso é possível porque o mundo físico das usinas é separado do contratual.
No início do ano, quando a hidrologia estava favorável, o sistema chegou a ter ganho de energia secundária — quando a geração das usinas é superior à vendida. A sazonalização dos contratos estava entre 80% e 90% das garantias físicas.

No segundo semestre, o cenário se inverte, com as usinas contratando até 120% das suas garantias físicas no mercado de energia. Isso ajuda a mitigar o efeito adverso do GSF.
Por isso, o custo da GSF nas cotas foi relativamente baixo de janeiro a abril, como mostra o levantamento da Comerc. No período, o custo médio das cotas foi de R$ 84,47/MWh, enquanto o GSF pago pelos consumidores foi de R$ 10,35/MWh. Com o início do período seco, em maio, a tendência é que o cenário mude e o custo do GSF nas cotas suba ainda mais. Em 2017, a energia cotizada custou em média R$ 147,21/MWh, sendo que mais da metade, R$ 81,25/ MWh, veio do GSF.