08/06/2018

Eólicas veem novas oportunidades no mercado livre

Fonte: Valor Econômico

Ainda muito atrelada aos contratos no mercado regulado, as geradoras eólicas enxergam na estruturação de novos modelos de financiamento a oportunidade para avançar no mercado livre de energia. O principal fator para o relativo otimismo vem do BNDES, que quer ser um indutor de novos projetos no setor.

“Há 18 anos eu acompanho o mercado e nunca vi uma oportunidade tão boa dos dois lados, tanto da demanda como da oferta”, afirma Elbia Gannoum, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica). “A gente tinha dificuldade com os financiamentos, que requerem contratos mais longos, e os contratos do mercado livre tem uma média de dois a seis anos.”

A executiva explica que a demanda por energia eólica avançou por conta da queda nos preços de geração da matriz. Já a oferta fica mais plausível com o banco de fomento disposto a aceitar contratos de curto prazo, mesmo para financiamento com amortização mais longa.

Para tornar os financiamentos viáveis, mesmo sem longos contratos, o BNDES utilizou para os cálculos de geração de caixa um Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) de suporte de R$ 90 o megawatt-hora (MWh). O valor é considerável mais próximo ao praticado pelo setor no mercado regulado, tornando a estruturação dos projetos para o mercado livre mais próxima do cenário atual. O PLD mínimo considerado pelo banco é de R$ 40 MWh.

O PLD adotado pelo BNDES também é considerado factível para o cálculo do Índice de Cobertura do Serviço da Dívida (ICSD), indicador de alavancagem adotado pelo banco, de 1,2 vez, levando em conta um sistema de amortização constante.

Além da mudança na métrica, o banco também estuda abrir oportunidade para as “garantias rolantes”, ou seja, os contratos de curto prazo podem ser substituídos por novos contratos quando os anteriores estiverem perto de seu encerramento.

“O BNDES tem histórico no mercado livre para o setor eólico, porém com contratação de 10 a 12 anos. Nossa intenção agora é ampliar a heterogeneidade de maturidade de contratos. Vamos nos aproximar do que é a maior dinâmica de contratação no mercado livre”, explicou Alexandre Siciliano, gerente de estudos da área de energia do BNDES, durante evento promovido pela Abeeólica.

A janela surge em um momento oportuno para o desenvolvimento no mercado livre, uma vez que as contratações reguladas estão em baixa. Depois de dois anos sem leilões, os certames mais recentes tiveram contratação pequena.

A Abeeólica calcula que a capacidade voltada para o mercado livre deve dobrar até 2023, para 2 gigawatts (GW). Para a geração eólica como um todo, o crescimento deve ser dos atuais 13 GW para 18 GW.

A iniciativa do BNDES também deve se estender para outros bancos de desenvolvimento, como o Banco do Nordeste, que inicia estudos para apresentar um modelo de financiamento que também inclua a negociação no mercado livre. “Temos sido bastante procurados para o mercado livre, tanto para projetos puros como mistos”, disse Humberto Leite, gerente de promoção do banco regional.

As empresas, no entanto, veem a melhoria ainda em estado inicial, exatamente por conta da dificuldade de acesso a financiamento.

“O estágio ainda é de caminhada do ponto de vista do mercado livre. Os gargalos ainda estão muito em cima da financiabilidade”, afirmou Luciano Freire, diretor de engenharia da Queiroz Galvão. A companhia possui 200 MW contratados diretamente para o mercado livre em um contrato de longo prazo, algo pouco comum para o segmento.

A expectativa é de que os primeiros projetos sob financiamento nos novos moldes saiam ainda neste ano. “Possivelmente tenhamos alguns contratos do BNDES em dezembro para apresentar”, projeta Elbia.