29/06/2018

Motor flex completa 15 anos no Brasil; relembre história e evolução

Fonte: Udop

Antes da “mobilidade alternativa”, do “dieselgate” e da onipresença global de projetos de carros elétricos dominarem a discussão, o mercado automotivo brasileiro já se notabilizava pela peculiaridade de usar uma matriz considerada (com alguma polêmica) “limpa”, o etanol, como fonte energética em seus motores a combustão.

Herança do programa Pró-Álcool, adotado em 1975 como resposta interna à crise internacional do petróleo, o combustível vegetal abriu ao consumidor nacional uma curiosa independência em relação às oscilações do petróleo.

Mas nem tudo foram flores. Primeiro porque os motores carburados a álcool impunham dificuldades quando operavam a baixas temperaturas — e teimavam em não pegar, por vezes.

Além disso, no fim da década de 1980 o país enfrentou uma séria crise de abastecimento do produto, motivado pelo baixo retorno financeiro aos usineiros, ao mesmo tempo em que 90% dos emplacamentos de veículos zero-quilômetro no país eram formados por unidades movidas a álcool.

À época se tornou comum ver motoristas de veículos movidos a etanol formarem filas gigantescas em frente aos postos. “As demais alternativas eram deixar o carro em casa ou fazer gambiarra para usar gasolina”, relembra Robson Cotta, gerente de engenharia experimental da FCA e que participou do desenvolvimento dos primeiros automóveis bicombustíveis da Fiat, ainda nos anos 1990.

Tal dificuldade contribuiu demasiado para a retração do mercado do etanol, mas também serviu de motivação para que engenheiros locais desenvolvessem os primeiros estudos de criação do carro flex. Afinal, se já tínhamos gasolina e etanol consolidados, por que não criar automóveis capazes de aceitar os dois combustíveis simultaneamente, dando ao usuário a opção de escolher qual usar de acordo com a conveniência?

“Desde a época do carburador já se pensava em como permitir a utilização conjunta de gasolina e etanol, mas sem injeção eletrônica seria impossível. A chegada da injeção [nota do editor: tal tecnologia estreou por aqui com o Volkswagen Gol GTi, em 1989] foi um grande passo para a criação do motor flex”, aponta Cotta.

Mesmo assim, foram necessários mais de 10 anos de estudos e experimentos até que o carro movido a etanol e tivesse alguma confiabilidade enfim se tornasse realidade. Só em 23 de março de 2003 a Volkswagen apresentou, durante a festa de comemoração de 50 anos de operação no país e com direito à presença do então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, o Gol 1.6 Total Flex.

Ele seria o primeiro de uma enxurrada de modelos que invadiriam o mercado e com uma nova tecnologia: o “flex” brasileiro, como foi batizado, permitia o uso de etanol, gasolina ou qualquer mistura dos dois combustíveis no tanque.

Naquele momento, uma ampla janela de oportunidades se abria.