21/11/2018

Concluir usina de Angra 3 elevaria a conta de luz em pelo menos R$ 6,6 bi

Fonte: Folha de S. Paulo

Estudos da consultoria PSR, uma das mais respeitadas do país na área de energia, analisaram o impacto de diferentes fontes sobre a conta de luz e chegaram à conclusão que a retomada das obras da usina nuclear de Angra 3 sairá mais cara para o consumidor do que abandonar o projeto.

O investimento em energia nuclear é considerado estratégico por boa parte dos militares, e o interesse em concluir Angra 3 já foi sinalizado pela equipe do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL).

O levantamento da PSR sobre Angra 3 mediu o efeito sobre a conta de luz ao longo de 35 anos.

Para dimensionar o impacto, o estudo mostra que se Angra 3 fosse substituída por projetos de energia solar no Sudeste —que são até mais caros que outras fontes como hidrelétricas, eólicas e algumas térmicas— haveria uma economia de R$ 6,6 bilhões.

Angra 3 começou a ser construída nos anos 1980. Após décadas de paralisação, o projeto foi retomado em 2010 e novamente suspenso em 2015, com 60% das obras finalizadas.

A usina foi alvo da Operação Lava Jato e suspeitas de irregularidades em seus contratos levaram até à prisão do presidente da Eletronuclear.

Finalizar a obra custaria cerca de R$ 17 bilhões, abandoná-la, R$ 12 bilhões —considerando os custos para quitar empréstimos, desmontar a estrutura, ressarcir contratos rompidos e pagar dívidas.

Para os defensores do projeto, a diferença “relativamente pequena” tornaria o custo-benefício favorável à conclusão.

Ocorre que a conta para os consumidores vai ser bem maior. Em outubro, CNPE (Conselho Nacional de Política Energética), um comitê do governo, acatou pedido da Eletrobras e praticamente dobrou o preço da energia de Angra 3 para R$ 480 por MWh (megawatt-hora).

Analistas envolvidos na retomada do projeto vinham afirmando que o valor anterior era muito baixo e que, sem uma alta, seria inviável retomar as obras.

O diretor da PSR Bernardo Bezerra questiona essa lógica. “Deveriam concluir a obra de Angra 3 se fosse mantida a tarifa anterior [de cerca de R$ 240]. Se essa tarifa torna a usina inviável, é melhor parar a obra, pagar o custo necessário e adotar a solução mais atrativa ao consumidor”, diz.

Para mostrar o efeito financeiro sobre a conta de luz dos brasileiros, a consultoria contabilizou o gasto para desativar Angra 3 e os custos para erguer e operar projetos solares. Somou tudo, e concluiu que haveria uma economia de R$ 6,6 bilhões.

“Usamos a energia solar apenas como exemplo, poderia ser outra fonte”, diz Bezerra.

Um analista do setor, que preferiu não se identificar para não entrar em polêmicas com órgãos estatais, concorda que há alternativas mais baratas para os consumidores. Destaca que opções com características semelhantes à energia nuclear, como térmicas movidas a gás natural, seriam mais econômicas.

A vantagem de Angra 3, segundo ele, seria de outra natureza: o desenvolvimento de tecnologia nuclear nacional, considerada estratégica por alguns.

Para Raphael Gomes, sócio da área de energia do Demarest, a fonte nuclear traz vantagens importantes: não polui e dá segurança ao sistema elétrico do país. No entanto, o novo preço é questionável.

“Retomar a obra seria importante, mas não a esse custo, muito acima das usinas que têm sido contratadas nos leilões recentes”, afirma.

Para ele, além do preço, o modelo de contratação, que prevê que os custos sejam integralmente repassados à conta de luz, poderia ser revisto.

“Poderiam estudar soluções criativas. Por exemplo, fragmentar o projeto e deixar uma parte da usina participar de leilões, ou vender energia no mercado livre [para grandes empresas, que compram em um mercado diferente dos consumidores residenciais]. É possível pensar em alternativas para reduzir o repasse ao consumidor”, afirma.

O TCU (Tribunal de Contas da União) também ficou preocupado com os custos. Abriu uma auditoria para analisar os critérios de retomada das obras e seus efeitos sobre os custos finais. A previsão é que essa análise seja concluída em março de 2019.

Procurado para comentar, o Ministério de Minas e Energia não quis se manifestar. A Eletrobras afirmou, em nota, que não vai comentar o assunto no momento.